Jong-il vai, Jong-un vem


É assustador pensarmos que um indivíduo pode dirigir uma nação. Aconteceu connosco, mas há que pôr os pontos nos i's e saber apontar diferenças. Sem desdenhar o engenho e a arte do 25 de Abril e seus maestros, não há dúvida que Portugal teve a sorte de se localizar no mundo ocidental.
Cumprida a primeira metade do séc. XX, chegou a tão famosa vaga democratizante, devorando qualquer opressor que encontrasse pelo caminho. Salazar bem se escondeu, levantando-se da cadeira para falar da guerra colonial e pouco mais. Alguns anos depois teríamos de ser a nós a derrubar o regime, mas o Ocidente também fez o seu papel, ainda que inconsciente. Pois bem, na Coreia passa-se uma situação idêntica, mas completante ao revés; com a China tão perto e a Rússia no poder, só podia dar nisto.
Morre Kim Jong-il
Já não se ouvia falar de uma morte na Coreia do Norte desde há uns largos anos, e eles ainda ficaram a pensar durante dois dias se Kim Jong-il tinha mesmo morrido. A característica de se ser mortal tem destas coisas, e o líder autoritário, guru da moda a part-time, acabou por morrer de complicações cardíacas - pelo menos é o que se sabe. A mão-de-ferro de Jong-il caiu sobre os norte-coreanos durante 17 anos de poder, desde que este sucedera a seu pai, Kim Il-sung, na chefia do país. Devido à hereditariedade do regime «comunista» da Coreia do Norte, Kim Jong-un, filho mais novo de Jong-il, vai tomar o poder a 28 de Dezembro.
No anúncio televisivo da sua morte, a «jornalista» chorava enquanto apresentava a causa de morte de Jong-il: vítima de «fadiga física» e da «dedicação ao povo». Mais tarde, em imagens divulgadas, o povo chorava copiosamente a morte do Querido Líder. O culto da personalidade é mesmo assim, e num país tão fechado como este, não seria de espantar se a grande maioria do povo sentisse, de facto, tristeza. Ao sucessor já lhe chamam o Grande Sucessor, e ao pai de Jong-il foi-lhe atribuído - já em 1998 - o título de Presidente Eterno. Não podemos ignorar as claras e cruéis semelhanças ao «Grande Irmão» de George Orwell, tirando o facto de na Coreia do Norte os líderes eventualmente morrerem, claro está.
A sete chaves
A informação que circula na Coreia do Norte é diminuta; o povo apenas «come» o que o Governo lhe der a comer, e tudo passa por uma selecção sem escrúpulos com que o Governo cimenta o seu poder. Como é que estudantes universitários não conhecem Nelson Mandela? Como é que nenhum cidadão pode ver documentários sobre o resto do Mundo? Os norte-coreanos nem Internet têm, apenas possuem uma espécie de Intranet com a informação a que estes podem ter acesso, nada mais que isso.
Um óptimo exemplo deste autoritarismo será mesmo a partida de futebol entre Portugal e a Coreia do Norte, a contar para o Campeonato do Mundo de 2010. Devido à boa exibição dos norte-coreanos frente ao Brasil, o Governo decidiu fazer a primeira transmissão televisiva de sempre de um jogo oficial, esse era frente à selecção portuguesa. Ora, Kim Jong-il teve algum azar na sua escolha, até porque a Coreia do Norte perdeu por 7-0. A partir do segundo golo luso, os comentadores norte-coreanos calaram-se e o resto da partida foi vista em silêncio.
O mais provável é que a Ditadura Militar em vigência continue; o regime hereditário favorece esta continuidade, tal e qual como um povo «bem alimentado». Ainda assim, a morte de Kim Jong-il não deixa de ser um acontecimento marcante para aqueles que ainda sonham com uma Coreia do Norte realmente democrática e livre. Até lá, a Coreia do Norte continua a ser uma gaveta fechada com a chave escondida bem lá no fundo do seu interior.

1 comentário:

Daniel Veloso disse...

É repugnante verificar a manutenção de ditaduras como a da Coreia do Norte, onde o "chefe supremo" ostenta um enorme luxo enquanto o povo sofre e se vê privado de direitos fundamentais como a liberdade de expressão. Mas interessante será também compreender se, aliada a uma abertura democrática, fará sentido a introdução de uma economia de mercado onde a concorrência selvagem e competição desmesurada vigorem, menosprezando os interesses da população e os direitos inerentes ao Estado Social. Parece-me que só o reforço desses direitos e o verdadeiro depósito da economia nas mãos do povo permitirão uma libertação popular, e uma dupla emancipação - tanto dos jugos ditatoriais como das amarras do imperialismo.

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