Música Portuguesa nos Anos 80


A música portuguesa é actualmente boa, simplesmente boa; mas já existiram tempos em que a música parecia emergir dos locais mais insólitos e invadir instantaneamente os melhores palcos de Portugal. Eram os anos 80.
A famosa década de 80 foi estrondosamente aberta por "Ar de Rock", álbum de estreia de Rui Veloso que continha a famosa "Chico Fininho". O músico portuense principiava assim o tempo em que a música deu que falar em Portugal, quando bandas surgiam por todo o lado e o rock nacional começava a afirma-se em palcos como o épico Rock Rendez Vous. Era o tempo dos Xutos, que surgiam em 1985 com "Cerco", chegando mais tarde a editar os brilhantes êxitos "Contentores" e "Homem do Leme", que hoje com mais de 20 anos revelam uma intemporalidade tremenda. Apareceram os Ban com "Suave", os Rádio Macau com "Anzol" (música que se diz ter inspirado os The Cure para a composição de "Just Like Heaven"), e os Heróis do Mar com "Amor, "Paixão" e a fantástica "Saudade".
Toda a música que era escrita neste tempo emanava o mesmo significado e irreverência; a crítica à sociedade, Governo e à própria vida, eram os temas mais escolhidos numa época em que Portugal conhecia a Liberdade há pouquíssimo tempo e a juventude queria dar algo de seu ao país, afirmando o seu estatuto através da música. Nada melhor que os Taxi, conjunto que ainda hoje existe, para fazer trespassar estes ideais com "Chiclete", composição que critica a sociedade consumista, e ainda "Cairo".
Foi nestes «longos e quentes» anos 80 que surgiram os Mão Morta, que com "Aum" e "Oub'lá" faziam o público adorar os seus agressivos concertos ainda nos primórdios da sua existência. Esta banda ficou ainda famosa quando Adolfo Luxúria Canibal, vocalista, a meio de uma "calorosa" actuação no Rock Rendez Vous, para "aplacar um bocado as coisas" afirmou este, começou a cortar a sua própria coxa com uma faca. Quando aos gritos de "Sede de Sangue" a plateia repara que Adolfo tinha infligido a ele próprio alguns golpes na perna, toda a confusão pareceu terminar. Este teve de ir para o hospital imediatamente a seguir ao fim do concerto, só depois se apercebendo dos graves cortes que havia feito.
Os anos 80 foram também, ainda que curtos, os anos do génio. Se na década de 70 tivemos Zeca Afonso com as suas músicas de carácter revolucionário, em 80 apareceu António Variações, indubitavelmente um dos melhores, senão o melhor músico português. Todas as suas músicas tinham algo de especial; as letras eram sem dúvida um ponto fortíssimo de Variações, retratando sempre a procura da mudança ou mesmo o gosto de viver. Músico do mundo e barbeiro de profissão, António Joaquim Rodrigues Ribeiro acaba por falecer em 1984, deixando para trás uma breve carreira artística mas um grande e excepcional repertório. Com composições como "Quero é Viver", "Estou além" e "O corpo é que paga", Variações alia uma energia e paixão notáveis a letras e ritmos agora nostálgicos e heróicos. Apresentou ainda ao mundo em 1984 "Canção de Engate", que, aos ouvidos de qualquer um, cria um sentimento de esperança e demonstra que António Variações cantava já em jeito de quem ia morrer.
Todos estes artistas marcaram uma época e fizeram história; não pela qualidade da música que produziram ou pelo sucesso que alguns arrecadaram, mas sim pelos ideais que difundiram, com os quais conseguiram ser os pioneiros em Portugal daquilo que já se tinha passado em Inglaterra e nos Estados Unidos na década de 60. A eles se deve maioritariamente a existência de boa música em Português.

3 comentários:

Flávio Moura disse...

Sem dúvida uma geração que originou uma imortalidade musical. As tuas palavras deixaram-me com uma sensação de não ter nascido na época certa. Muito trabalhinho de casa feito por detrás deste texto, muito bom.

Maialtec disse...

Corroboro o Flávio, quem me dera ter nascido nesta época! Muito bom o texto e as informações tão muito completas, sim senhor. Continua sr. jornalista!

Anónimo disse...

Que saudades desse tempo ... sou das sortudas que cresceu a ouvir este tipo de música....

Parabéns pelo artigo.
Manuela Oliv

Enviar um comentário