Sombras

Em cena no Teatro Nacional São João até 28 de Novembro, está a peça "Sombras", de Ricardo Pais. Depois de abandonar esta «casa» passará ainda por outros locais do país, como Guimarães e Lisboa, passando também pelos Açores. É ainda relevante informar que, num panorama internacional, a peça irá ser apresentada em Paris e no Brasil.
Apenas o princípio
Mesmo antes do início da acção o espectador é abordado por uma projecção algo confusa numa tela semi-transparente, esta que, ao longo do início da peça, é utilizada de forma sublime com a luz e a sombra, revelando apenas certos detalhes do cenário. Somos rapidamente consumidos pela sua índole musical quando um voz se ergue no silêncio - o nosso fado. Raquel Tavares, acompanhada pela guitarra, (en)canta uma letra sobre o inconsolável amor de mãe - "Quem não tem mãe, não tem nada". Segue-se um célere e ininterrupto monólogo em que o espectador é literalmente inundado por um insólito discurso; uma cena mágica que o aliena para o drama vivido pela personagem. A acção continua, sempre com Portugal como panorama principal, o seu povo, o seu carácter, as suas obras.
Várias Artes
A temática é auxiliada pela dança, pela música, e pelo canto, que se fundem assim em perfeita sintonia, resultando em extáticos momentos de criação artística. Com uma excepcional formação de músicos, a peça é dotada de momentos realmente inefáveis. O destaque cai, inevitavelmente, sobre Mário Laginha, exímio pianista que nesta obra não desilude. Porém, outros artistas merecem a devida referência, como Miguel Amaral, na guitarra portuguesa, ou ainda Carlos Piçarra Alves, que parecia tocar a sua vida no clarinete. Quanto aos fadistas, José Manuel Barreto e Raquel Tavares, esses merecem uma incomensurável quantidade de interjeições de tão grande que é a qualidade de suas actuações.
A interpretação e dança não ficam nada atrás, aparecendo em interlúdios fantásticos que conseguem arregalar os olhos à audiência (como no excepcional entreacto "Traição"). Quanto aos actores, Emília Silvestre, Pedro Almendra e Pedro Frias, é necessário referir o seu excelente trabalho, sem o qual a peça perderia todo o sentido.
Trata-se, definitivamente, de uma peça muito rica, favorecida, é claro, pelo envolvimento estupefaciente que a música, a dança e a interpretação, têm em torno das falas. Ricardo Pais dirigiu assim um - complexo - espectáculo que merece o nosso tempo, tratando-se quase de uma auto-descoberta. Assombroso.

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