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Festivais de Verão 2012


O mundo festivaleiro português já mexe, também já estava na hora. A periodicidade de novas confirmações aumentou bastante e os cartazes vão ficando cada vez mais compostos. Obrigados a combinar três variáveis - a qualidade da música, o ambiente no recinto e acampamento, tal como o preço do bilhete -, os festivais vão atraindo ou repelindo visitantes. Mas afinal onde é que vale a pena ir este Verão?
É óbvio que o ambiente de um festival é, em grande parte, obra dos festivaleiros, mas a organização nunca pode descurar a sua contribuição. Como evento citadino, sem acampamento próprio ou próximo do festival, o Alive! apresenta um ambiente muito incaracterístico dos festivais de verão, quer no recinto como no acampamento (pago à parte), pelo que se torna muito pouco atractivo neste aspecto. Em termos das bandas encaixadas, é fácil entender que o Alive! está a tentar ascender, perspectivando uma disputa com os melhores da Europa.
The Stone Roses, The Cure e Radiohead são nomes sonantes, mas não são os únicos a juntar alguma categoria ao cartaz; Metronomy, Justice, Caribou e Mumford & Sons também cativam milhares de pessoas. No entanto, com esta ascensão em visibilidade, o preço é obrigado a acompanhar a subida, pelo que não é tarefa fácil colocar este festival como certo numa agenda de férias. Vale a pena pela música, mas perde muito pelo ambiente, ou melhor dizendo, a falta dele.
Bilhete Diário - 53€
Passe 3 Dias - 105€
Passe Campismo - 16€
Realizando a sua terceira edição no presente formato, o Super Bock incorre no mesmo erro que o Alive!: o acampamento. Este foi duramente criticado pelas absurdas quantidades de areia e pela falta de sombra, consequentemente, o ambiente também não contou com grandes elogios. No ano passado o cartaz contava com Arcade Fire, The Strokes e Arctic Monkeys, gigantes da música que levaram milhares ao Meco. Contudo, as condições do som também foram alvo de bastantes queixas, uma vez que os concertos não puderam ser aproveitados como seria expectável.
Apesar de ainda existirem bastantes espaços por preencher, as bandas confirmadas para a presente edição estão uns furos abaixo das expectativas. Certamente que Incubus, The Horrors ou Pete Doherty não cativam tantos festivaleiros quanto os artistas do ano que passou, ainda por cima com as condições oferecidas.
Bilhete Diário - 45€
Passe 3 Dias - 80€
Neste momento, Paredes de Coura é o festival mais antigo de Portugal ainda em actividade, caminhando já para a sua 20ª edição. A idade torna-o, sem dúvida alguma, um caso especial; procurado pelo seu ambiente, é dos únicos festivais capazes de vender bilhetes sem ter confirmado uma única banda. O rock alternativo e o indie sempre reinaram no festival, mas uns ligeiros desvios (Sex Pistols e Nine Inch Nails) nunca causaram grandes choques ao fiel público. Ainda assim, todos conhecem as enormes limitações orçamentais de que o festival padece, pelo que os nomes apresentados "nunca" são enormes.
Para este ano, a organização já confirmou dois nomes grandes: Ornatos Violeta e Kasabian. Se com os primeiros a nação de Paredes rejubila, com os segundos a indiferença é enorme. Depois de um álbum brilhante, os Kasabian vão agora apresentar um longa-duração fraquíssimo, muito fora do seu registo habitual. Ainda faltam muitos artistas, mas se o objectivo for uma abstracção do Mundo durante uma semana, Paredes de Coura é a escolha certa.
Passe 4 dias - 80€
Primavera Sound
Originalmente em exclusivo na terra de nuestros hermanos, o Primavera Sound invade pela primeira vez o território nacional. O festival vai desenrolar-se no Parque da Cidade, no Porto, mas apresenta-se com um conceito exageradamente indie. Apesar de conter alguns nomes de maior dimensão, como Björk, Black Lips ou The Flaming Lips, o cartaz parece insuficiente para um bilhete de 99€. Esta relação cartaz/preço apresenta-se como a principal falha do Primavera, que apenas terá sucesso por atrair o universo hipster do momento.
Marés Vivas
Comemorando o seu 10º aniversário com uma edição de 4 dias, o Marés Vivas apresenta-se como um festival cada vez maior. Contando com Franz Ferdinand, The Cult, Billy Idol e Gogol Bordello, entre outros, o festival de Gaia apresenta um cartaz forte, ainda que algo repetitivo. O passe não é dos mais caros (50€), mas o festival não possui acampamento, pelo que ao preço do bilhete ainda acresce o da dormida. Assim, o Marés acaba por ser uma boa opção a nível musical, ainda que muito fraca a nível de ambiente.
Percebendo as diferenças entre os principais festivais portugueses, torna-se simples entender que há algo para todos os gostos. Seja pela índole musical, ambiente ou até proximidade geográfica, cada festival torna-se apelativo para um determinado público. No entanto, quando a música é o único aspecto realmente cativante, se isso falha tudo o resto se perde. O que se torna, então, importante? O ambiente ou a música? A partir daqui é com o festivaleiro.

A Liga do avesso


Há cerca de um mês chamar-me-iam de louco, demente ou insano. Os óraculos do futebol cuspiriam sobre mim e os adeptos seguir-se-iam, vaiando e apupando, mostrando sua larga insatisfação. Pois, mas eu também não ousei pensar em algo do género, quanto mais em partilhá-lo com as gentes! Mas aconteceu, muito para desgosto da hostes benfiquistas e para júbilo da nação portista.
Quatro jogos decisivos
Confortavelmente no primeiro posto da Liga Portuguesa, com cinco pontos de avanço sobre o segundo classificado FC Porto, o Benfica prepara o jogo contra o Zenit de São Petersburgo. Em três jornadas defrontaria a equipa do norte, mas as atenções estavam voltadas para o encontro da Champions. Os encarnados acabariam por perder a partida de forma inglória, com o marcador a mostrar um frio e pouco justo 3-2. Ainda assim, resultado menos negativo do que a temperatura soviética - chegaram a estar -20ºC na Rússia -, visto o encontro ter sido jogado no campo do adversário. Não obstante, tratava-se da segunda derrota da época, depois de as águias terem caído frente ao Marítimo para a Taça de Portugal, ainda em Dezembro.
Voltando-se para a Liga nacional, pela frente apareciam V. Guimarães, Académica e FC Porto; com apenas este último embate a ser jogado em casa. Contra os vimaranenses não se esperavam facilitismos, e assim o foi. Os ataques encarnados foram demasiado inconsequentes, e o único golo do jogo surgiu pelo pé de Toscano, aos 37 minutos. Com esta derrota, o Benfica ficava apenas dois pontos à frente do Porto, o que ainda era uma vantagem preciosa. Frente aos estudantes, golos nem vê-los; o jogo terminou mesmo com um nulo, pelo que as águias viam cinco pontos sumir em apenas duas partidas, permitindo o regresso do Porto à liderança. Agora faltava o clássico, onde o Benfica poderia colocar um ponto final a esta onda de resultados negativos.
Um clássico é sempre um clássico
Apesar de serem apenas três os pontos em discussão, o clássico não poderia surgir em altura mais importante. O vencedor conquistaria a liderança isolada e o derrotado correria o risco de ser apanhado pelos guerreiros minhotos do SC Braga. O Porto acabou por vencer pela terceira vez consecutiva no Estádio da Luz, condenando o Benfica à sua quarta partida sem qualquer triunfo. Mas não foram simples as contas e há bastante a comentar sobre o clássico.
Do ponto de vista da arbitragem são dois os casos mais problemáticos: primeiro o penalty não assinalado por mão de Cardozo aos 81', e depois o golo vitorioso do FC Porto, mal validado devido ao fora-de-jogo de Maicon. Ambas estas ocorrências escaparam à equipa de arbitragem, o que elevou bastante os ânimos à volta do clássico.
Vital é referir o papel de Vítor Pereira no encontro, que finalmente revelou aptidão técnico-táctica, arriscando e colhendo bastantes frutos. A perder 2-1 soube prescindir de Rolando, recuar Djalma e colocar tudo nas costas de James Rodríguez, que pouco depois fez o empate. Sem se contentar com o resultado, Vítor Pereira faz entrar Kléber para o lugar de João Moutinho, o que, apesar da expulsão de Emerson, foi colocar tudo em risco. Na jogada seguinte surge o tal golo em infracção de Maicon que deu a vitória aos dragões.
Remontada
Se as anteriores jornadas já premeditavam uma virada completa na Liga, este encontro acabou por ser o seu culminar. O Benfica, que desde o início da temporada jogava o melhor futebol em Portugal, vê o seu trabalho parcialmente destruído em pouco menos de um mês. Quanto ao FC Porto, que vinha vencendo sem grande espectáculo, fez o seu trabalho e não se deixou cair sob a pressão. Mas uma coisa é certa, enquanto que os dragões concentram todas as suas forças na principal competição nacional, as águias ainda discutem a Champions.
Quem também se aproveitou desta situação foi o Braga, que igualou o Benfica no segundo posto, mostrando condições para um eventual assalto à liderança. A nove jornadas do final, com 27 pontos em discussão, ainda há muito campeonato para jogar e o vencedor está longe de ser encontrado. Place your bets.
Hoje à noite: SL Benfica x Zenit às 19h45 em directo na RTP1

Meu caro Aníbal


Por esta altura chovem gritos sobre o Palácio de Belém; o povo português chora as condições em que o mártir vive. Não se equipara ao desespero dos norte-coreanos aquando da morte do Querido Líder, até porque aqui nas terras d'el Rei não estamos a falar de morte, ainda que a inanição seja um perigo a ter em conta. Cavaco Silva, cuja humildade e bondade me obrigam a prostrar e chamá-lo de Pai, sofre por todos nós. Corre o rumor que já é principal candidato ao Prémio Nobel da Paz.
A epopeia
Para analisar correctamente a situação de tão majestosa figura paternal, remontemos a Janeiro de 2011. Face a um dilema socrático, o Pai prescindiu do salário de Presidente da República - de cerca de 6.523€ mensais -, optando por receber pensões que totalizam cerca de 140 mil euros por ano - mais de 10.000€/mês. Com esta escolha, o Pai fugiu ao corte dos 10% de salário, e no final das contas consegue arrecadar cerca de 2.000€ a mais do que se tivesse optado pelo salário de Presidente. Assim começava a caminhada do peregrino para a glória a que hoje assistimos.
Um ano volvido sabe-se a trágica notícia, o Pai não aguenta a pressão e confidencia: «Ainda não sei quanto irei receber. Tudo somado, quase de certeza que não vai chegar para pagar as minhas despesas (...)». O país foi apanhado de surpresa, até porque o Pai nada fez para evidenciar as suas dificuldades económicas, protegendo o povo - na qualidade de filho - pelo qual transporta o cruel cilício. Atroz, mas verídico, Portugal tem a sorte de ter um Pai que prefere o jejum para assim deixar o filho rapar o prato.
Teatrinhos à parte
Tal é o descaramento que me é bastante complicado comentar o ocorrido sem recorrer ao uso da ironia. Cavaco Silva - porque um Pai que nos abandona ninguém quer - e a sua esposa estão a amealhar por volta de 10.000€ ao mês, o que poderá não ser suficiente, diz este. Cavaco diz ser poupado e autointitula-se de «provedor do povo»; apesar disso, parece que este vencimento mensal não será suficiente para satisfazer as necessidades básicas de um casal, pelo que a fome deverá atacar Belém ainda este ano.
Em 2009, existiam em Portugal mais de 1,9 milhões de famílias a viver com um rendimento inferior a 10.000€ anuais, mas Cavaco não se aguenta com 10.000€ por mês. O ganho médio mensal de um trabalhador por conta de outrem é de 1.034€, mas Cavaco não se aguenta com 10.000€ por mês. Em 2010, a remuneração do trabalho per capita foi fixada nos 8.283€/ano, mas Cavaco não se aguenta com 10.000€ por mês. A pensar que Cavaco é que era o economista...
Desde há uns tempos que me apercebi do quão mal está representado o nosso país, mas nunca senti verdadeira vergonha por ter Cavaco Silva a Presidente da República, o que agora sinto. Até hoje, Aníbal Cavaco Silva apenas se tinha sentado na sua poltrona, inaugurado meia dúzia de Casas de Apoio ao Apoiado e quando em público falou, sim porque o homem falou, foi para desestabilizar o trabalho do Governo - muito por culpa de nunca ter conseguido separar o Aníbal do Presidente da República. Agora, tudo mudou, o nosso próprio Presidente fez do português um bobo e provou que somos todos joguetes nas mãos de irresponsáveis.

Economia Estatal


Já veio a público a nomeação de Eduardo Catroga para chairman da EDP, empresa privatizada após negociações em que este mesmo participou. Irá auferir 45.000 euros mensais, acumulando uma pensão de 9.600 euros. Se isto não é pouco ético, não sei o que será. Primeiro o explícito boy, depois o facto de ser uma parte ganhante quando fez parte da comissão de negociações, e ainda a pensão milionária (o salário fica de fora da discussão, a introdução tem os seus limites técnicos).
A Economia portuguesa
O exemplo de Catroga assenta que nem uma luva quando queremos iniciar um pensamento sobre os dinheiros públicos. Nos tempos que correm, a pensão de 9.600 euros é chocante, que não me deixa entender a razão para que nenhum Governo tenha tido a ideia de congelar as pensões quando os salários são elevadíssimos. Pensando melhor, a razão está explícita, muitos deles juntam salário a uma pensão nas contas finais do mês, seria aborrecido. Não obstante a gravidade desta situação, o que verdadeiramente faz desaparecer o dinheiro são outro tipo de questões.
Um dos problemas basilares da economia portuguesa é, na verdade, a economia paralela. Em Portugal esta já atingiu os 33 mil milhões de euros, quase 20% do PIB nacional. Com tanto dinheiro desviado dos cofres do Estado, não admira que a crise seja inevitável. Trata-se de uma problemática estrutural, que sem resolução continuará a desviar fundos ao Estado, este que caminha pobre e mal alimentado. Em Itália já existem leis para controlar a economia paralela, como a obrigatoriedade de um cliente possuir o recibo quando está a menos de 100 metros da respectiva loja - caso contrário essa loja paga uma multa elevada.
Impostos e Fiscalização
O verdadeiro buraco negro da economia portuguesa está, como é claro, nos impostos e sua inexistente fiscalização. Este é, de facto, o cenário idílico para um indivíduo mostrar o seu know how em manobras à portuguesa. O português gosta de esperteza saloia, e, portanto, não lhe dá jeito pagar impostos. Convenhamos, se o vizinho não paga e nada lhe acontece, para que é se há-de pagar? Operação mental digna de um Descartes.
Sabendo-se que a fuga aos impostos é gigantesca, porque não se faz nada para a travar? Infelizmente, a maioria que foge à sua obrigação fiscal tem bastante dinheiro, e muitas vezes influência política. Aqui entram os lobbys, que tanto destroem e corrompem o nosso sistema político-legislativo. Isto sim precisa de mudar, é necessário que alguém tenha vontade e poder suficientes para abolir o sistema, caindo veemente sobre aqueles que evitam o progresso do nosso país.
Só vejo isto possível na figura de um Presidente da República, não o que temos agora, mas sim uma figura activa e presente na política portuguesa, algo mais do que um inconstante comentador inconveniente que nada acrescenta às decisões. Um Primeiro-Ministro estará sempre ligado aos interesses do seu partido e do Governo, mas um Presidente apartidário e responsável poderá bem ter a desejada influência para dar um volta à situação. A sua figura terá sempre proeminência no que toca ao comentário político, e as suas funções não são assim tão reduzidas como a maioria acredita.
A economia portuguesa segue no trilho de um futuro ainda mais negro do que o presente. Não se investe na produção, os cortes são sistemáticos e os lucros são diminutos. Sem apostas claras e confiantes em consertar os erros, dificilmente escaparemos ao redemoinho da crise.

Nota: No meu último artigo falei do movimento de ocupação de casas abandonadas. Na Irlanda já há quem o faça. Leia aqui o artigo do The Guardian.

O Estado e a Habitação


À passagem do novo ano, a coligação entre PSD e CDS aprovou a Nova Lei do Arrendamento, o que já tem suscitado bastantes contestações da esquerda. Esta prevê uma revisão/actualização dos contratos arrendatários, devido a uma suposta discrepância para com os seus correctos valores. No que toca ao arrendamento, que outras soluções encontrar para Portugal e as necessidades das populações?
A Nova Lei
Os contratos de arrendamento em Portugal são renovados automaticamente, pelo que os preços praticados já estão desvalorizados tendo em conta os actuais valores de mercado - 48,5% das rendas em Portugal estão abaixo dos 60€. Foi sobre este mote que o Governo aprovou em Conselho de Ministros, ainda que parcialmente, a Nova Lei do Arrendamento. Está ainda prevista a criação de contratos mais curtos, tal como uma taxa liberatória de 25% sobre as rendas recebidas.
No entanto, a medida mais controversa poderá ser a relativa ao despejo. Segundo a nova lei, após aviso do proprietário, o inquilino terá 3 meses para pagar o dinheiro em falta ou será despejado. A esquerda não tardou a reagir à nova legislação, em especial a esta última prerrogativa. A bancada socialista já prometeu que irá propôr profundas alterações à proposta de lei do Governo, afirmando que não abdicarão «da defesa dos mais carenciados da sociedade». Já o Bloco, através da deputada Catarina Martins, apelidou a proposta do Governo de «Lei do Despejo simplex». Tendo em conta os interesses dos cidadãos mais carenciados a esquerda está «unida» frente à decisão do Governo.
Ocupação e Enfiteuse
Portugal sofre de uma proliferação de casas abandonadas, terrenos perdidos e habitações inacabadas. Sem-abrigos não têm tecto sob o qual viver e dormir, enquanto outros sobrevivem em condições miseráveis; isto quando no preciso centro da metrópole se multiplicam as casas vagas, sombrias e em mau estado. Em países como Inglaterra e Holanda, onde já existe legislação sobre a ocupação, o ocupador tem possibilidade de manter a casa e viver nela legalmente, caso, num determinado período de tempo, ninguém apareça a reclamar a sua posse.
Um regime de enfiteuse prevê um arrendamento por um período de tempo bastante alargado, por vezes até de gerações. No final do contrato, a renovação é proposta ao inquilino, cuja decisão em continuar ou não o aluguer é soberana. Combinando uma legislação eficaz da ocupação com um regime de enfiteuse, Portugal poderia dar um passo importante para a justiça social na habitação. Nos casos da ocupação, a propriedade das habitações passava para o Estado, que aí alugaria a baixo custo a habitação ao seu ocupante original. Assim, ao iniciar a ocupação de casas antigas, já degradas e vagas, estaríamos a fomentar a reconversão dos centros urbanos, a requalificação das habitações, tal como a aumentar a qualidade de vida das populações.
A longo prazo, o Estado tem a possibilidade de dar início a um programa com horizontes bastante extensos, com o qual poderá ganhar muito. Concluindo, este processo, além de moroso, traz ademais encargos judiciais e fiscais, mas os ganhos financeiros e sociais do Estado são demasiado elevados para ignorar tamanha hipótese.

Ensino Superior foi à rua

(Foto de Sérgio Miguel Santos/ASF)
14h00. Concentração marcada no Marquês; mais um movimento, mais uma mostra de indignação, mais uma manifestação. Os Estudantes do Ensino Superior, grupo do qual este autor orgulhosamente faz parte, iam-se juntando perto do monumento àquele que reconstruiu a capital. Em causa estavam os cortes planeados pelo Governo para a Educação e, como é claro, suas duras represálias.
A indignação de todos e de cada um
Uma manifestação é "sempre" de um grupo, é suposto que todos os presentes protejam um ideal ou tenham visão em comum; contudo, também podemos falar de um pensamento individual por parte de cada sujeito desse grupo. Diversos eram os gritos de ordem que exigiam uma abolição das propinas, outros que punham em causa o plano de austeridade, e ainda outros o próprio Governo. Eu, como estudante e cidadão, não tenho a obrigação de concordar com o que foi gritado, simplesmente não o fazendo. De facto, enquanto não era a favor de um "Propinas Não!", puxava dos pulmões para um "A propina dói!"; e quando gaguejava no "Acção social não existe em Portugal", não vacilava no "Fazia falta já uma bolsa uma bolsa".
Com isto apenas quero dizer que, sejamos a favor ou contra as medidas deste Governo, de esquerda ou direita, não podemos ser cegos ao ponto de não ver o que se passa no Ensino Superior - e não só. Existem estudantes sem bolsas quando as deviam ter, estudantes endividados para pagar os cursos, ex-estudantes que só o são devido a problemas financeiros. E ainda há outro caso extremo: na última semana saiu, nos media em geral, este artigo que alertava para o facto de existirem estudantes, na Universidade do Algarve, a passar fome. Segundo o Expresso, em Aveiro a situação é idêntica. Para ajudar à festa, só mesmo a seguinte pérola descoberta há algumas semanas: 123 alunos ricos da Universidade do Minho, alguns de famílias com empresas com lucros a chegar à ordem do milhão de euros, recebem bolsas de estudo - ver notícia aqui. De facto, quando nos falta a moral e a ética, falta-nos tudo.
A manifestação
Acompanhados de uma forte cobertura mediática e por uma abismal «escolta» policial, eram várias as centenas de estudantes que partiram, em marcha lenta, em direcção à Assembleia da República. Faixas, megafones e cartazes, tudo picou o ponto na manifestação. Músicas é que iam faltando, e ao fim de quatro horas a cassete já tinha a fita gasta e emaranhada. Em falta estiveram também a Federação Académica do Porto e a Associação Académica de Coimbra (por motivos eleitorais), que certamente teriam dado um corpo diferente à manifestação.
Na Rua de São Bento os corpos cercavam-se e as vozes pareciam multiplicar-se. Não diria como vítimas de ventríloquos, mas por vezes a estética dos megafones fez desvanecer a autonomia ideológica. Muito se sacrifica em prol do volume. Assim começou, assim terminou: o megafone funcionou como o palco do destaque; os concorrentes foram chegando: dez minutos de espectáculo frente à Assembleia bastaram para dispersar e rematar o movimento.
Ainda assim, funcionámos como um e lançámos o desafio. A indignação fez-se sentir, e se o eco não chegou ao interior da Assembleia (Captain Obvious), chegou aos jornais, o que demonstra que o assunto é delicado e a luta é legítima. Mudam-se os tempos, mudam-se as verdades, e a força estudantil já não é o que era. Contudo, ficou o «cartão amarelo directo» a esta entrada a pés juntos do Governo sobre os jovens portugueses, universitários ou não. O resultado da partida vai caminhando, como sempre, a favor dos mesmos.
A pergunta é: quem é que protege os que não têm hipótese de, condignamente, frequentar o ensino universitário? O Governo? Até agora, nada! Tal como eu, felizmente há quem tenha possibilidades de pagar a faculdade sem qualquer ajuda adicional, mas não é isso que nos vai impedir de mostrar indignação perante esta âncora da miséria a que outros estão amarrados.
Com o contributo de Pedro Pereira

Por entre as quinas da selecção


A selecção portuguesa de futebol está igual a si mesma: mais um apuramento sofrido, arrancado num play-off em estilo de déjà vu. É claro que as duas primeiras derrotas da qualificação, sob o comando de Carlos Queiroz, também pesaram, mas a Paulo Bento faltou-lhe a ponta final - o jogo frente à Dinamarca.
As renúncias
Quando falamos na mesma predestinação e estrutura, não podemos deixar de lado os dois casos que marcaram os últimos meses da formação portuguesa. Em apenas três meses Portugal viu-se privado de dois dos seus melhores defesas: Ricardo Carvalho e José Bosingwa.
O primeiro caso foi o de Carvalho, apelidado de «desertor» por Paulo Bento, o jogador chegou a dar uma entrevista à RTP, na qual não disse nada de novo e tão-pouco se justificou. Ricardo Carvalho abandonou o estágio da selecção nacional sem dar quaisquer explicações ao treinador e colegas. Mais tarde disse que se sentia «a mais, desrespeitado e ferido». Se Portugal já tinha ficado sem um brilhante jogador, não tardou muito para que outro lhe seguisse os passos.
Antes das partidas frente à Islândia e Dinamarca, Bosingwa renunciava à selecção nacional. Em causa estavam os comentários de Paulo Bento sobre as condições mentais e emocionais que Bosingwa oferecia, preferindo outros jogadores como João Pereira ou Sílvio. Bosingwa sentiu-se, tal como Carvalho, «ofendido e desrespeitado», caracterizando Paulo Bento como um «treinador conflituoso, que não tem capacidade emocional ou mental para liderar um grupo de homens».
O play-off
Cientes destas duas perdas, mas segundo Postiga mais atrapalhados com a chuva, Portugal partia para dois embates decisivos com a Bósnia-Herzegovina. Era a oportunidade para os bósnios se vingarem do play-off de há dois anos, isso ou tornarem Portugal no seu carrasco habitual. Pelo leste a selecção não fez nada de fantástico, empatou uma partida sem muita história segurando bem a eliminatória. Uma série de perdidas sem nexo custaram a vitória a ambas as equipas e a falta de eficácia acabou por ditar o 0-0 final. Ao nível individual vimos Pepe brilhar, mostrando excelente capacidade em liderar o eixo defensivo.
Na Luz a história foi outra. Com a lotação do estádio quase esgotada, Portugal sabia bem a tarefa que tinha de desempenhar, e como o fazer. A intenção ofensiva demonstrou-se desde o início, e a abertura do marcador coube a Cristiano Ronaldo e mais uma das suas exímias cobranças de livres-directos, que levantou o Estádio da Luz aos 6'. A selecção continuou a atacar e Nani, aos 24', desferiu um incrível remate do meio da rua, fazendo o 2-0. Os bósnios reduziram antes do intervalo, com uma grande penalidade, e já no segundo tempo marcaram novo golo, que fez o 3-2. O esquema defensivo não foi o melhor, o que provocou alguns erros e alguma insegurança quanto ao resultado. Ainda assim, a selecção das quinas nunca perdeu o seu norte, e foi Hélder Postiga a matar o jogo - e o fantasma que o perseguia - aos 72', dando-se ao luxo de bisar e fechar o resultado em 6-2 pouco depois.
Foi com uma goleada que Portugal carimbou a passagem à fase final do Europeu 2012, a ser realizado na Polónia e na Ucrânia. Já se sabe que Ricardo Carvalho e Bosingwa não terão possibilidades de integrar a comitiva portuguesa, pelo que serão menos duas referências defensivas. Quanto ao sorteio, este será realizado no dia 2 de Dezembro; Portugal aparece no pote 3, ladeado por Croácia, Grécia e Suécia, selecções estas que não podem calhar aos portugueses.

Manifestações e suas complicações


No rescaldo dos recentes movimentos que têm acontecido em Portugal e pelo Mundo, cada vez mais questões há a levantar; não só quanto à génese dos acontecimentos, mas também a pequenos - por vezes grandes - detalhes que não podem escapar.
Manifestações
No passado dia 15 de Outubro ocorreram, um pouco por todo o globo, manifestações apartidárias de indignação. Portugal não foi excepção e os cidadãos saíram à rua, indignados com a situação em que o país e o planeta se encontram. De facto, muita coisa está mal no nosso país, e as manifestações servem para evidenciar isso mesmo, mostrar que há um descontentamento geral e gritar pela mudança. Contudo, por vezes ocorrem situações que não podem deixar de ser comentadas/criticadas.
Nas páginas centrais do Expresso, edição de 22 de Outubro de 2011, vinha uma pequena reportagem fotográfica sobre as manifestações, incluindo três fotos bastante interessantes. A primeira (ver aqui), quase que não merece quaisquer comentários. Além de evidenciar claramente o oposto de uma manifestação, impressiona de tão ridícula que é. Não encontro outra forma de sairmos deste buraco sem sermos nacionalistas, seja a que nível for; e é mesmo com um autocolante a dizer "Somos um povo de merda!!!" colado na cara que nos vamos conseguir fazer ouvir. O português passa a vida a queixar-se que nos contentamos com tudo, que ficamos calados e quietos, mas esta é realmente nova. Compreende-se o sentimento de revolta, mas a maneira como é expressado não podia estar mais errada.
Suas complicações
Existe, pelo mundo fora, um certo sentimento de desdém para com os polícias e forças de segurança. Em alguns casos, chega a parecer que os "adversários" não são - como seria de esperar - manifestantes e governo, mas sim manifestantes e corpos policiais. Mas ainda em mais casos, as pessoas costumam pensar que os polícias são os maus-da-fita, os "primeiros a bater", os insensíveis, os tiranos. Assim, gera-se o preconceito de que a culpa é sempre da polícia, por fazer uso da violência, quando, por vezes, os manifestantes conseguem fazer bem pior. Tenha-se em atenção o caso da Grécia, onde já se viu de tudo: ambos os lados a gerar a violência. As outras duas fotografias podem ser utilizadas para ilustrar este assunto.
Na primeira foto (ver aqui) podemos adivinhar a tal violência policial gratuita, que recorrentemente vemos ser usada contra manifestantes pacíficos. Quanto à segunda (ver acima) podemos ter o exemplo da provocação não violenta. A mulher que vemos a berrar, dirige o olhar e, portanto, o grito para um polícia. Será mesmo esse o adversário? Quando em grupo, as pessoas tendem a agir como não agiriam se estivessem sozinhas, e por vezes são violentas, dando início aos confrontos. Em ambas as fotos não nos é possível ter certezas, já que não sabemos a ordem cronológica dos acontecimentos, o antes e o depois. Ainda assim, podem funcionar como ilustradoras de ambas as situações.
Concluindo, denotamos assim que nem sempre podemos apontar o dedo ao mesmo bode expiatório. Há situações em que as forças policiais, equipadas e armadas, exageram no uso da violência; mas também sabemos que, certas vezes, os manifestantes "atiram a primeira pedra". Mas quanto ao leitor: na maioria dos casos, será que é mesmo a polícia a ser demasiado violenta, ou os manifestantes também têm a sua culpa?

Por entre túneis e tribunais


Os escândalos em volta do futebol português nunca cessam de nos espantar, repletos de escutas, frutas e meias-de-leite. Há uns anos - ainda que se tenha prolongado até há bem pouco tempo - foi a vez do Caso Apito Dourado, talvez o processo mais ardente do futebol nacional das últimas temporadas. Nele estavam envolvidas várias figuras conhecidas do futebol, destacando-se Pinto da Costa e João Loureiro, presidentes do FC Porto e Boavista, respectivamente. Nas últimas décadas foram várias as polémicas em torno do futebol, e nestes últimos dois anos parece que um único caso esteve em destaque por duas ocasiões.
O Túnel da Luz
Estávamos em Dezembro de 2009, e o Benfica recebia o Porto no Estádio da Luz. Naquela altura - à passagem da 14ª jornada - as equipas estavam separadas por apenas 1 ponto, com o Benfica no 2ª lugar e o Porto um posto atrás (o Braga ia na frente com os mesmos pontos que o Benfica). Nesse encontro - ganho e dominado pela equipa da Luz -, já depois do seu final, ocorreu um dos casos mais paradigmáticos dos últimos tempos. Hulk e Sapunaru, quando já se dirigiam para o balneário, envolveram-se em confrontos com um steward, tendo mesmo agredido o segurança em questão. Após este conflito, a Comissão Disciplinar da LPF deliberou que Hulk fosse suspenso por quatro meses e Sapunaru seis. O brasileiro conhecia assim uma pena que o iria afastar de 17 partidas, já o romeno, face a esta suspensão, foi emprestado ao Rapid de Bucareste.
A grande polémica, se é que já não havia suficiente, veio com a decisão do Conselho de Justiça. Este órgão da Federação Portuguesa de Futebol - alegando provocações por parte do steward - reduziu as penas de Hulk e Sapunaru para três e quatro jogos, respectivamente, anulando a anterior decisão do Conselho Disciplinar. Devido a esta resposta tardia, o FC Porto viu-se privado da sua figura de proa por mais 14 jogos do que o suposto. Há quem diga que foi um duro golpe nos objectivos portistas, que com Hulk tudo teria sido diferente, mas também se diz que todo o decorrer do conflito foi um esquema das "águias"; porém, isso nunca saberemos, ficamo-nos pelos "ses".
O Túnel da Luz II
No dia 11 de Outubro, o jornal Correio da Manhã informava em manchete garrafal que o Ministério Público queria condenar cinco jogadores do FC Porto a 3 anos de prisão (leia aqui a notícia). Entre os acusados, para além de Hulk e Sapunaru, constavam os nomes de Helton, Rodriguez e Fucile. Ao que parece, o MP pretende avançar com acusações sobre estes jogadores, tomando as agressões contra os stewards como deliberadas e conscientes. Ora, julgo que aqui todos nos questionamos: de onde é que isto surgiu? Como é que o Ministério Público se vai lembrar de acusar cinco jogadores de futebol passado 1 ano, 9 meses e 21 dias do suposto crime? Crime esse com uma história muito mal contada. Todos nos lembramos da semana que se seguiu ao jogo onde tudo aconteceu; a cada dia que passava era acrescentado mais um facto e outro era desmentido. Será que é caso para duvidar da notícia? Ou será que devemos questionar a seriedade do Ministério Público? Caso complicado, que possivelmente ainda terá muito «pano para mangas».
O futebol continua a surpreender-nos (negativamente) com todos os escândalos que cria e propaga; e este caso não é nenhuma excepção. Os dirigentes vão anexando um maior poder, que os torna cada vez mais corruptos, o que culmina num desporto progressivamente jogado fora das quatro linhas e não dentro delas. Ficamos, assim, na seguinte dúvida: será que os «tentáculos» do futebol se vão expandir ainda mais? Quais as esferas de poder que vão «atacar» de seguida? É algo bastante imprevisível, e que apesar de termos noção da sua existência, nunca saberemos a verdadeira e completa versão da história.

Twilight Zone


(Direitos sobre a foto: EPA)
A série de culto norte-americana Twilight Zone obteve um nome diferente tanto no Brasil como em Portugal; foi então chamada de Além da Imaginação e Quinta Dimensão, respectivamente. Qualquer uma destas escolhas parece ser capaz de adjectivar perfeitamente a Região Autónoma da Madeira, a primeira dirigindo-se para a sua situação actual e a segunda para a região como um todo.
O buraco
Muito foi dito sobre o buraco da Madeira nestas últimas semanas, mas enquanto Portugal se encontrava em «choque», Alberto João Jardim fazia troça da ocorrência. Quando interpelado, é óbvio que Jardim acaba sempre por desviar o assunto, entregando as culpas ao continente e seus bastardos - como ele gosta de lhes chamar. No final de Setembro, aquando da inauguração de 1km de estrada na freguesia de Curral das Freiras, o Presidente da Madeira comentou o seguinte:
"Todos se lembram do buraco que era o Curral das Freiras, a miséria que era viver nesta cratera, nesta cratera que parece a República Portuguesa. Eles dizem que a gente tem um buraco, eles têm uma cratera."
Contudo, verdade seja dita, não é complicado perder o fio à meada quando criticamos um país como Portugal, principalmente em matéria económica. Ainda assim, não é por isso que esta situação deixa de ser gravíssima, e o pior foi a omissão da dívida. Tenhamos apenas em atenção um pequeno facto com uma grande represália: este desfalque nas contas da ilha da Madeira acaba de agravar o défice nacional em 1600 milhões de euros (segundo o PS-Madeira, e para alegria do povo, é para começar já a pagar em Dezembro). Vai mesmo para além da imaginação.
The show must go on
O resultado das últimas Eleições Regionais da Madeira espelha tudo aquilo que por lá se passa, todos sabem, mas poucos dizem. Incrédulo ninguém ficou, perplexo muito menos, mas é certo que preocupados ficámos todos. Este não-espanto também comprova o quão fundo já vai a Madeira no seu buraco, aqui num sentido muito mais lato. O interesse está no facto de que não é a democracia a falhar, mas sim o poder que não a deixa operar. Não aponto corrupção no acto eleitoral - isso seria, porventura, um exagero - mas sim na vida pública de toda a Madeira. Ainda há relativamente pouco tempo, há cerca de quatro anos, Alberto João Jardim soltou um «L'État c'est moi», seguido de uma gargalhada, quando estava cercado por microfones. Ora, nem o próprio Presidente faz por afastar a imagem de um ditador, citando Luís XIV, o tão conhecido e infame rei-sol. Foi por estas e por outras que o PND, Partido Nova Democracia, se viu obrigado a uma campanha mais invasiva nas Legislativas 2011 - como esta.
No acto eleitoral, o PPD/PSD obteve 48,56% dos votos e maioria absoluta, contando com 25 assentos numa Assembleia composta por 47 lugares. Desta forma, o poder vai continuar incontestável, e os protestos de nada servirão. O ciclo que Alberto João Jardim formou na sociedade madeirense funciona agora como áurea protectora, um escudo que protege tanto o líder como todos aqueles que nele votam. Quem vai procurar perder certas regalias, ou até mesmo o emprego, votando contra aquele que assegura tudo isto? Por agora, os madeirenses têm um líder que dirige a região como um clube de futebol, trata o Presidente da República por «Sr. Silva» e quer expulsar imigrantes do país - ver aqui. A conjuntura política está complicada, e decerto que se o povo não «abrir os olhos», após este virá outro igual, pelo menos enquanto a maioria absoluta não permitir o voto sobre a lei do número máximo de mandatos. De momento, tudo aquilo parece normal... para uma Quinta Dimensão.

O novo Governo


A 5 de Junho os portugueses "decidiram": PSD e CDS entrariam em coligação para tentar tirar o país da situação miserável em que muitos o colocaram. Pouco depois o Presidente da República - sim, porque afinal de contas ele sempre tem poder para fazer alguma coisa - escolheu Pedro Passos Coelho, representante do partido mais votado, como Primeiro-Ministro da República Portuguesa.
Vitórias e Derrotas
Deixando de parte uma análise exaustiva aos resultados eleitorais, julgamos que apenas a abstenção merece o devido destaque (como já é regra), atingindo os 41.93% de eleitores. A insatisfação era muita, mas não serve, de modo algum, para justificar uma não comparência às urnas. O português desenvolveu um desrespeito notável pelo direito de voto, não percebendo a importância que este tem para o rumo da nação.
Já estava previsto que o PS ia sofrer um duro golpe nestas legislativas, muito por culpa do seu representante máximo, José Sócrates. O ex-Primeiro Ministro, para além de ter provocado toda esta situação, já vinha a agregar "crimes" ao seu cadastro desde há muito tempo. Assim, como o português muito gosta de votar no candidato e não no partido, já era óbvio que muitos iriam mudar o seu voto e afundar o PS a uma vitória social-democrata. Depois de uma humilhante derrota, que retirou 23 mandatos ao PS, José Sócrates demitiu-se de seu cargo - que de resto já tem dois concorrentes, Assis e Seguro -, decisão que só um louco não tomaria.
No reverso da medalha estavam PSD e CDS, o primeiro devido a esta vitória estrondosa que enviou Passos Coelho para a chefia do Governo e arrecadou quase 47% dos assentos da Assembleia; o segundo porque já aspirava a protagonismo político há algum tempo, logrando aqui conseguir a coligação que desejava. Estes dois partidos juntaram-se assim para chefiar a nação portuguesa, apresentando quatro ministros do PSD, três do CDS e quatro independentes.
Depressa e bem...
Ao novo Governo pediram-se decisões rápidas, certeiras e poupadas. O primeiro aspecto tratado foi o de reduzir o número de ministérios de 16 para 11, adjudicando mais tarefas a certos ministérios e fundindo outros. Com a troika no nosso encalço, o Governo tem de mostrar não só actividade, mas também rapidez e poupança. Deste modo, as medidas começaram a surgir: o subsídio de Natal vai ser retirado a grande parte dos portugueses; as pensões vão diminuir, ainda que para os mais necessitados cheguem a aumentar; as parcerias Público-Privadas vão estar sob revisão e aquelas que não têm interesse para o Estado vão ser terminadas; algumas empresas vão ser privatizadas. Estas são algumas das medidas que o novo Governo espera implementar com sucesso, para assim combater e vencer a crise com a ajuda do dinheiro da troika.
Quem não parece querer ajudar são as agências de rating, que não só já haviam afectado os bancos portugueses, como agora desceram a avaliação da dívida pública portuguesa para "lixo". Apesar da procura continuar maior que a oferta, esta descida de classificação coloca mais pressão sobre a dívida pública portuguesa, o que poderá obrigar a uma maior taxa de juro. A conjuntura é desfavorável para Portugal, mas a ajuda monetária do FMI veio devolver algum fôlego à nação lusa. Enquanto o novo Governo tenta salvar o país, o português também pode fazer a sua parte, comprando apenas produtos nacionais e evitando importações de estrangeiros.
A economia nacional necessita de um empurrão e o Governo da confiança de todos os portugueses.

Temporada avassaladora


O FC Porto fechou a época em grande, com uma vitória por 6-2 frente ao Vitória de Guimarães, consumando o seu quarto e último troféu deste ano. Villas-Boas e a sua formação bateram recordes e mais recordes, tantos que uma enumeração aqui serviria para um artigo de tamanho considerável. Só uma taça ficou fora do alcance do FC Porto, a Taça da Liga - competição com menos prestígio em Portugal mas que não deixa de ser importante. Pelo caminho foram arrecadadas a Supertaça Cândido de Oliveira, a Liga Zon Sagres, a Liga Europa e, como já referi, a Taça de Portugal.
Liga Europa
A final da segunda competição europeia, a seguir à Liga dos Campeões, foi disputada em Dublin, Irlanda. Apesar do hóspede e ambiente irlandeses, a final era completamente portuguesa - feito até agora inédito para Portugal -, colocando Sporting de Braga e FC Porto num frente-a-frente nortenho. As equipas já se tinham defrontado por duas ocasiões na presente época, os dragões saíram a ganhar em ambas: primeiro,uma esforçada vitória por 3-2 em casa, num dos melhores jogos da Liga Zon Sagres deste ano, e depois um 2-0 no Estádio AXA, casa do SC Braga, com um bis de Otamendi. Fosse qual fosse o desfecho, o campeão seria português, feito importantíssimo para as aspirações nacionais e culminar de uma excelente campanha europeia que fez Portugal subir três posições no ranking da UEFA, de 9º para 6º. É ainda de assinalar o facto de sermos a nação com mais vitórias em competições europeias nesta época: 41, contra as 40 de Espanha e 39 de Inglaterra - e tivemos menos jogos!
O jogo acabou por não revelar grande qualidade, apresentando um futebol muito táctico e seguro do FC Porto e um jogo muito amedrontando do SC Braga na retranca, que só revelava a cabeça em saídas de contra-ataque. E é numa destas saídas para o ataque - não muito rápida - que o Braga perde a posse de bola e possibilita aos portistas o 1-0 aos 44', altura perfeita para se abrir o marcador no futebol. O colombiano Guarín ganha o esférico e cruza de forma irrepreensível para o seu compatriota Falcao, o culpado do costume, fazer mexer o marcador pela primeira e última vez. Até ao final o jogo foi disputado, mas sempre no meio-campo, com poucas oportunidades. Ainda assim, o Braga conseguiu assustar, mas Mossoró não fez mais do que acertar em Helton quando se encontrava isolado em frente ao guardião brasileiro. O Porto renovava o título da Liga Europa ganho em 2003 (ano em que esta ainda se chamava Taça UEFA).
A temporada
O resumo da temporada é espantoso: 58 jogos, traduzidos em 49 vitórias, 5 empates e 4 derrotas. Absolutamente destruidor este Porto, que só não igualou o melhor registo alguma vez feito na Liga Portuguesa (apenas 2 empates), por desconcentração frente ao Paços de Ferreira, na penúltima jornada. Ainda assim, e como tinha dito, a lista de recordes não tem precedentes, e esta é mesmo uma temporada que ficará marcada na história do clube como uma das melhores sempre. Em Agosto, o campeão voltará às disputas de troféus, começando com a Supertaça de Portugal, frente ao Guimarães, e terminando com a Supertaça Europeia, contra o vencedor da Champions - Barcelona ou Manchester. Este último troféu apenas foi ganho por uma vez pelas hostes portistas, em três tentativas efectuadas.
Depois de uma época assim, tudo é possível.

Chegou a «troika»


Quando eu era pequenino obrigavam-me a comer os espinafres e aquelas coisas verdes todas. O pretexto era quase sempre ser forte ou apenas crescer. Ora, quem quer ser um super-herói não se pode dar ao luxo de ver a sua carreira arrasada por um pequeno esforço falhado. Assim, eu lá comia.
Poupança
Neste último mês o tão temido FMI acabou mesmo por entrar no nosso país, para assim tomar comando das contas nacionais. Fala-se muito em planos de austeridade e num futuro de grandes privações para o povo português, com salários reduzidos e impostos aumentados. A «troika» dos "Cortes & Costuras" não parece vir com misericórdias e quer mesmo ver resultados e acordos para levar a cabo o empréstimo de 80 mil milhões de euros. O poder de compra dos portugueses vai sofrer muito, obrigando a que muitas bolsas fechem os seus cordões.
Vejamos, então, se as minhas noções básicas em Economia não falham: sem dinheiro, as pessoas não compram; se não compram, também não se vende; se não se vende, o comércio estagna e o dinheiro não circula. Desta forma, vamos cair numa depressão ainda maior, mais lojas irão fechar, o desemprego vai aumentar, e a pobreza, consequentemente, irá seguir pelo mesmo caminho. É claro que a questão não é assim tão linear, e se o fosse isso não implicaria a nossa salvação - com a corrupção que por aqui anda já nada me espanta.
Objectivo principal
O mais benéfico para o nosso país seria, sem dúvida alguma, o relançar da economia, não apenas um ridículo e efémero acertar de contas. É claro que não podemos atingir o primeiro sem o segundo, mas as medidas a aplicar são completamente diferentes. Precisamos que os portugueses se sintam confortáveis ao comprar o que quer que seja, o dinheiro precisa de ser investido para que todos ganhem e que a produtividade se torne rentável. Há muitas formas de conseguir isto, começando com investimentos tanto no sector público como no privado e um maior controlo sobre os grandes grupos económicos e a sua falta de disputa no mercado (caso das gasolineiras). No entanto, os economistas parecem bem mais empenhados em fazer perdurar a miséria parcial que se vive em Portugal do que puro e simplesmente erradicá-la de vez.
Lembram-se do exemplo dos legumes? Pois bem, não posso dizer que sou o Mr. Universe, mas cresci de forma saudável. Se o FMI chega cá e ainda nos quer tirar mais «legumes», como estará o país daqui a uns anos? O que será feito de Portugal se estamos a criar uma nação de pobres? O futuro é incerto, mas, para já, prevê-se negro, muito negro.

Bode expiatório da ignorância


José Sócrates apresentou, na passada quarta-feira, a sua carta de demissão ao Presidente da República. O ex-Primeiro-Ministro afirmou que não teria condições de governar caso o PEC IV fosse rejeitado, e, como não podia deixar de ser, a oposição fez-lhe a vontade, desafiando a sua palavra ao abrir a porta de saída.
A coligação «interesseira»
Na Assembleia da República o teatro costuma ser prato do dia, e na quarta-feira a peça foi determinante para o futuro do país. Apesar da união de toda a oposição na rejeição ao PEC, esta coligação não foi nada mais do que um movimento de interesses partidários. O orgulho de um português é algo de muito delicado, e o único assunto no qual os partidos se conseguiram entender foi no da rejeição ao PEC, ou melhor dizendo, no despedimento de José Sócrates. Sim, foi isso que esteve em questão, o aproveitar de um argumento viável para despedir de uma vez por todas o líder do PS do seu cargo de Primeiro-Ministro.
A oposição já se sentia injustiçada há muito tempo, não vendo final para este «martírio» político. Desta feita, mal viram a oportunidade de ver José Sócrates pelas costas, não a desperdiçaram. Ao invés de operarem uma coligação pelo bem do país, foram os protagonistas de um verdadeiro jogo da batata quente. José Sócrates vai-se recandidatar e este jogo de crianças está longe de conhecer o seu fim.
Ignorância política
Em ambos os pós-guerra o Comunismo viveu épocas áureas, aglomerando em si milhões de apoiantes. A questão era simples: os bolsos ficaram vazios e o proletariado sentia-se injustiçado pelas classes altas. Quando o pobre vê a possibilidade de derrubar o rico, nem pensa duas vezes. Assim, os portugueses ainda vão demorar algum tempo a perceber que esta queda de Governo não é totalmente benéfica, se é que não é apenas prejudicial. Como o dinheiro falta e o português pouco ou nada percebe de política, chegando ao ponto de nem sequer votar, este deixa-se influenciar por «joguinhos políticos» e julga que a culpa é sempre do mesmo, do Primeiro-Ministro. De facto, parece ser ele o visado em toda e qualquer conversa e discussão entre deputados.
A ironia reside mesmo no facto de o que maioria pensa estar bem longe do que ela faz. Sócrates apresentou a sua recandidatura, e vamos a ver se o português vai conseguir mudar o seu voto, ainda que não seja para não nos voltar a colocar na estaca zero. Já se percebeu que a oposição não quer trabalhar com José Sócrates, e já que decidiram retirar-lhe o seu cargo, façamos-lhe a vontade e votemos noutro candidato. Caso contrário, são «apenas» mais uns milhões desperdiçados, nada que nos faça falta.

Depois da história, resultados


O futebol português atingiu um patamar histórico. Pela primeira vez, três equipas nacionais lograram atingir os quartos-de-final de uma competição europeia, ainda que seja a secundária. Sim, isso mesmo, Portugal tem agora 3 formações nas últimas 8, um feito incrível. Ainda por cima, o país teve a sorte de obter um sorteio extremamente favorável, sem jogos entre equipas portuguesas e com o Villarreal, segundo favorito à conquista da prova, noutra partida.
FC Porto
O Porto teve, até agora, uma caminhada bastante sólida. Na fase de grupos conquistou o 1º lugar, registando cinco vitórias e apenas um empate. Desde então, eliminou Sevilha e CSKA Moskva com três triunfos e uma derrota, única nesta competição. Os portistas chegaram ao golo por 19 ocasiões e apenas concederam 7 tentos. Em caso de vitória sobre o Spartak Moskva, equipa repescada da Liga dos Campeões, pode encontrar Villarreal ou Twente nas «meias». A equipa da cidade invicta é apontada como a favorita para a conquista do troféu.
SL Benfica
O Benfica chegou à Liga Europa por intermédio de uma repescagem fortuita da «liga milionária», consumada por um golo de Lacazette (Lyon) ao Hapoel Tel Aviv aos 88'. Não obstante, a equipa de Lisboa já conseguiu eliminar o Estugarda e o PSG, coleccionando três vitórias e um empate, fruto de 7 golos marcados e apenas 3 sofridos. Interessante é o facto de as águias já terem conseguido virar o marcador por duas vezes, ambas no Estádio da Luz. Tem agora pela frente o PSV, 1º classificado da Liga Holandesa. Com a Liga Zon Sagres praticamente fora do horizonte, Jorge Jesus pode apostar na vitória de uma competição europeia, agora que o Benfica é tido como o 3º favorito.
SC Braga
Os «Guerreiros» do Minho foram absolutamente irrepreensíveis nesta temporada europeia. Depois uma excelente prestação na Liga dos Campeões, à qual chegou depois de eliminar heroicamente o Celtic e o Sevilha, o Braga conseguiu qualificar-se, sem dúvida alguma, para a segunda competição europeia. Entretanto, já deixou pelo caminho Lech Poznan e Liverpool, colosso inglês. Sem marcar muitos golos, o Braga conseguiu exibições de qualidade, o que se traduziu em partidas pouco atribulada e uma qualificação de sucesso. Na rifa saiu o Dynamo Kyiv, gigante do leste que, ainda assim, não deverá assustar as hostes arsenalistas.
As equipas portuguesas estão bem encaminhadas para um triunfo na Liga Europa, e, com esta excelente campanha, o país está a uma vitória de ter 3 equipas na Liga dos Campeões em 2011/12. Com sorte, Portugal poderá atingir o impensável: colocar três formações lusas nas últimas quatro equipas. Se este cenário se vier a verificar, Benfica e Braga disputarão uma das meias-finais, primeiro confronto português numa competição europeia. As probabilidades estão a nosso favor, e depois da história, que venham os resultados!

Uma Verdade Inconveniente


Não, não se trata de uma análise ao documentário sobre Al Gore e a sua inconveniente apresentação de «slides», ou ainda uma dissertação acerca da obesidade na América do Sul e a sua culpa formada no que toca à amarga quebra de açúcar do passado Natal. Até porque cá em casa no Natal não há cá disso, só se come salgadinhos.
Desde criança que sonho em distribuir publicidade, e, quando confrontado com a escolha entre isso e ser jogador de futebol, decidi enveredar por esse caminho. Sim, porque nessa altura o Eusébio não ganhava 4 contos por mês mas andava por aí, e eu não era gajo para andar de meias rotas. Hoje realizei esse sonho. Porém, o tiro saiu-me uns quantos furos abaixo, quando a única coisa que subiu foi a minha dor de costas e o peso do mealheiro. Basicamente, o suficiente para me fazer repetir a experiência vezes sem conta.
Egocentrismo
Que as pessoas não queiram receber o panfleto de publicidade, isso eu entendo, apesar de não custar nada abrir o vidro e esticar a mão, isto se o vidro não estiver já aberto, o que só obrigaria a esticar a mão. É claro que há parvos em todo o lado, isso ou então grande parte dos portugueses sofre de síndrome do túnel carpal. Mas o extremo é outro: aqueles que pura e simplesmente ignoram quem ali está a trabalhar, continuando a olhar em frente ou até mesmo desviando a cara para o outro lado. Não sei de onde é que este português snob surgiu e de que raízes aprendeu estes costumes tão egocêntricos, mas é impressionante ver tanto individualismo num único ser.
Ainda assim, existe um detalhe que evidencia uma situação ainda mais assustadora. A realidade é simples, quanto melhor fôr o carro, mais provável é vermos a entrega do panfleto ser recusada. Em pratos limpos: quanto mais alto é o nível económico de alguém, maior é a sua tendência para o menosprezo pelos demais. E apenas me levou duas horas para me dar conta deste facto, e, quando um topo de gama descia a rua, já fazia contas à probabilidade de fazer figura d'urso. É ainda importante referir que existem diferentes packs, entre os quais se contam o estático aspirante a mimo, e os intemporais Três Macacos Sábios, dependendo, é claro, do número de bestas que se encontrarem dentro da viatura.
É realmente assustador encontrar uma linearidade quase rigorosa entre estes dois aspectos, o que mostra muito de um povo que nunca foi mal-habituado e agora parece começar a sê-lo. Se calhar a crise vem para pôr tudo na linha, mas enquanto dá umas «réguadas» nos ricos, atira os pobres para a miséria.

Nota: Decidi fugir um pouco à minha escrita habitual, tentanto explorar uma polivalência benéfica, escolhendo, neste caso, a crónica humorística. Penso que a ironia e o sarcasmo são geralmente as melhores armas para combater assuntos de cariz importante. Fora o descrito no texto, senti-me útil, pela primeira vez trabalhei para os meus objectivos e finalmente encontrei um trabalho que posso executar. Espero voltar a fazê-lo várias vezes mais, porque bem necessito.

Abstenção é ignorância


As eleições presidenciais portuguesas de 2011 serão realizadas a 23 de Janeiro de 2011, colocando frente a frente seis candidatos. Claramente que o destaque tem de ser entregue a Cavaco Silva, actual Presidente da República, que é seguido por Manuel Alegre e Fernando Nobre, respectivamente e segundo as últimas sondagens.
Clima
O clima de instabilidade política que se faz sentir em Portugal é responsável por acções possivelmente determinantes nestas eleições. Se, por um lado dão azo a uma forte rajada de críticas ao actual PR por parte da oposição, por outro acabam por provocar um certo medo de mudança nos eleitores. O povo português sempre teve receio de mudar o que quer que fosse, e fosse qual fosse o estado do país. A máxima do «quem está mal muda-se» é completamente ignorada, em detrimento de um «mal por mal ficamos na mesma» fatal.
Previsões
Cavaco Silva segue na frente, e, segundo as sondagens, conseguirá mesmo obter a maioria absoluta na 1ª volta. Manuel Alegre deverá obter o segundo lugar, com uma percentagem de votos entre os 22% e os 26%. Assim, tudo indica que Manuel Alegre vai ser novamente batido por Cavaco Silva, este que atingirá o seu segundo mandato. Fernando Nobre, presidente da AMI, e Francisco Lopes, apoiado pelo PCP, são os candidatos que se seguem nas sondagens. Por último, e já com uma percentagem de votos irrisória, aparecem Defensor Moura e José Manuel Coelho.
Abstenção
O português nunca gostou de se levantar do sofá para ir buscar uma cerveja, quanto mais para ir às urnas votar num «líder» para o seu país. Relembre-se que nas últimas presidenciais, em 2006, registou-se uma abstenção de 38,47%.O estado da nação também ajuda a que o eleitor não se sinta motivado, mas o acto do voto é, antes de um direito, uma obrigação. Durante décadas a liberdade de expressão era inexistente no nosso país, continuando a sê-lo em muitos lugares da Terra, pelo que é preciso dar-lhe o apoio e força merecidos. A abstenção é ignorância, vá votar!

E lá se vai mais um ano (2/2)


Ambiente
Em 2010 conhecemos o maior desastre ecológico da história dos Estados Unidos, o derrame de petróleo no Golfo do México. Este foi provocado pela explosão e consequente afundamento de uma plataforma petrolífera, atingiu o estatuto de maior derrame acidental do mundo, e era até visto do espaço (ver imagem). Com o escape de 4,9 mil milhões de barris de petróleo, este derramamento apenas ficou atrás dos derrames intencionais de 1995 no Kuwait, que registaram a perda de cinco mil milhões de barris. A fuga demorou quase três meses até ser completamente reparada, o que agravou as consequências inerentes a todo este problema. A BP, entidade proprietária da tal plataforma, a Deepwater Horizon, ficou assim marcada pela negativa nas bocas do Mundo.
Política
Barack Obama perde a maioria na Câmara dos Representantes e recebe uma clara mensagem de todos os americanos. A América necessita de um novo rumo, com resultados mais concretos e visíveis, e Obama enfrenta agora um período de grande negociação entre dois partidos, um com o Senado e outro com o Congresso.
Dilma Rousseff vence as eleições presidenciais do Brasil com 56% dos votos, derrotando o seu adversário José Serra, que se ficou pelos 44%. Dilma, apoiada por Lula da Silva, tornou-se a primeira mulher a chegar ao cargo de Presidente do Brasil.
Laurent Gbagbo perde a segunda volta das eleições presidencias da Costa do Marfim para Alassane Ouattara, porém, recusa-se a desistir do poder. Gbagbo insiste que não foram apresentandos quaisquer dados do resultado das eleições pela comissão, pelo que não entregará o poder. Montou ainda um cerco ao hotel Golf, onde o seu adversário está a ser protegido pelos capacetes azuis. O perigo de guerra civil é iminente.

Foi um ano repleto de acontecimentos marcantes, e estes dois artigos são apenas duas breves sínteses do que em 2010 se passou. É claro que muito mais foi escrito nas páginas da História mundial, mas o Multimedia Journalism apenas tem o objectivo de seleccionar uma série de importantes eventos ou pessoas que de certo modo afectaram o desenrolar do ano em diversos panoramas, nacionais ou internacionais.

E lá se vai mais um ano (1/2)


2010 conhece amanhã o seu fim. Foi um ano agitado, repleto de acontecimentos que marcarão as páginas do nosso futuro e outros que nem por isso, ou que então ficarão recordados à sua maneira. Existe sempre algo a apontar quando olhamos para trás. Mas, afinal, o que é que se passou em 2010?
Desporto
À última jornada da Liga Sagres, o Benfica estava em primeiro lugar, à frente do Braga (2º) e do FC Porto (3º), terminando com o jejum de quatro anos e festejando assim o seu 32º título na competição; a equipa encarnada venceu também a Taça da Liga. O Porto viria, contudo, a conquistar a Taça de Portugal e a Supertaça, terminando o ano de 2010 com apenas 3 derrotas, melhor registo de toda a Europa.
Portugal chegou a qualificar-se para o Mundial na África do Sul, mas acabou eliminado pela Espanha nos oitavos-de-final com um golo inválido, selecção esta que viria a vencer o Campeonato. Mais tarde os lusos viriam a derrotar os espanhóis por um brilhante 4-0 no Estádio da Luz.
A FIFA escolhe a Rússia e o Qatar como organizadores dos Mundiais de 2018 e 2022, respectivamente, colocando de lado a candidatura ibérica.
Alberto Contador vence o Tour de France, batendo Armstrong; porém, análises ao sangue do ciclista espanhol acusam a presença de um anabolizante proibido, colocando-o em risco de perder o título.
Sébastien Loeb vence pela sétima vez consecutiva o Mundial de Ralis, reconfirmado a sua supremacia face a todos os outros pilotos.
Música
Os Arcade Fire editam aquele que é considerado o melhor registo de 2010, The Suburbs, continuando com o seu emergente sucesso. Bandas como MGMT, Vampire Weekend, Gorillaz, e Foals, também lançam álbuns de elevada qualidade. Jónsi, vocalista dos Sigur Rós, lança o seu primeiro álbum a solo - Go.
Pearl Jam terminam a sua tour em Portugal, no festival Optimus Alive!10, levando 45 mil pessoas ao Passeio Marítimo de Algés; o evento acolheu 112 mil pessoas ao longo dos três dias de concertos. Paredes de Coura traz os The Prodigy às margens do Rio Tabuão, e surge mais um festival nortenho, o Milhões de Festa. Vilar de Mouros foi novamente adiado, não registando actividade desde a sua última edição, em 2006.
O grupo português Mão Morta assinala o seu 25º aniversário com mais um álbum, Pesadelos em Peluche, e uma tour por diversos palcos do país.
Cinema
Christopher Nolan escreve e dirige Inception, aclamado pela generalidade como o melhor filme do ano (9.0 no IMDb). Leonardo DiCaprio, para além de protagonista em Inception, desempenha o papel principal em Shutter Island, outro bom filme de 2010.
Harry Potter e os Talismãs da Morte marcou significativamente o ano para todos os aficcionados da saga, não só por ser o último capítulo desta emblemática história, mas também por estar divido em duas partes, sendo que a segunda apenas é apresentada em Julho de 2011. Esta coloca um ponto final a toda a aventura.
The Social Network e 127 Horas são outros dois filmes que prometem deixar a sua marca no ano que passou. O primeiro conta toda a controvérsia que se desenvolveu em torno da rede social Facebook, já o segundo apresenta a história verídica de um intrépido montanhista que conhece os seus limites ao ficar preso num desfiladeiro.

Sombras

Em cena no Teatro Nacional São João até 28 de Novembro, está a peça "Sombras", de Ricardo Pais. Depois de abandonar esta «casa» passará ainda por outros locais do país, como Guimarães e Lisboa, passando também pelos Açores. É ainda relevante informar que, num panorama internacional, a peça irá ser apresentada em Paris e no Brasil.
Apenas o princípio
Mesmo antes do início da acção o espectador é abordado por uma projecção algo confusa numa tela semi-transparente, esta que, ao longo do início da peça, é utilizada de forma sublime com a luz e a sombra, revelando apenas certos detalhes do cenário. Somos rapidamente consumidos pela sua índole musical quando um voz se ergue no silêncio - o nosso fado. Raquel Tavares, acompanhada pela guitarra, (en)canta uma letra sobre o inconsolável amor de mãe - "Quem não tem mãe, não tem nada". Segue-se um célere e ininterrupto monólogo em que o espectador é literalmente inundado por um insólito discurso; uma cena mágica que o aliena para o drama vivido pela personagem. A acção continua, sempre com Portugal como panorama principal, o seu povo, o seu carácter, as suas obras.
Várias Artes
A temática é auxiliada pela dança, pela música, e pelo canto, que se fundem assim em perfeita sintonia, resultando em extáticos momentos de criação artística. Com uma excepcional formação de músicos, a peça é dotada de momentos realmente inefáveis. O destaque cai, inevitavelmente, sobre Mário Laginha, exímio pianista que nesta obra não desilude. Porém, outros artistas merecem a devida referência, como Miguel Amaral, na guitarra portuguesa, ou ainda Carlos Piçarra Alves, que parecia tocar a sua vida no clarinete. Quanto aos fadistas, José Manuel Barreto e Raquel Tavares, esses merecem uma incomensurável quantidade de interjeições de tão grande que é a qualidade de suas actuações.
A interpretação e dança não ficam nada atrás, aparecendo em interlúdios fantásticos que conseguem arregalar os olhos à audiência (como no excepcional entreacto "Traição"). Quanto aos actores, Emília Silvestre, Pedro Almendra e Pedro Frias, é necessário referir o seu excelente trabalho, sem o qual a peça perderia todo o sentido.
Trata-se, definitivamente, de uma peça muito rica, favorecida, é claro, pelo envolvimento estupefaciente que a música, a dança e a interpretação, têm em torno das falas. Ricardo Pais dirigiu assim um - complexo - espectáculo que merece o nosso tempo, tratando-se quase de uma auto-descoberta. Assombroso.