Lágrimas Negras


Bebo Valdés - Havana, 1918. Diego «El Cigala» - Madrid, 1968. Cinquenta são os anos que separam o nascimento destes dois homens; por entre este tempo, muitos foram os que desapareceram sem merecer a mais breve nota na História. Porém, o caso destes dois senhores é peculiar. Apesar da enorme discrepância de idades e divergências culturais, acabaram por deambular juntos num álbum musical soberbo.
Lágrimas Negras
Tudo começa quando Diego «El Cigala» vê uma gravação de Bebo Valdés e Cachao López, que nela interpretavam o tema Lágrimas Negras. Pouco tempo depois estavam sentados à mesma mesa -Diego e Bebo - discutindo um novo projecto, rapidamente transformado em muito mais do que um simples disco. As gravações começam a 9 de Setembro de 2002, sucedendo-se por entre interlúdios de ensaios e decisões sobre que músicas incluir.
Inolvidable abre sensacionalmente o registo e, de forma simples, introduz o estilo muito próprio deste dueto. El Cigala canta-nos um grito de desespero e Bebo involve-o de um drama puro, digno de um amor nunca esquecido. A temática do Amor e da Saudade domina todo o álbum, aliando a música a letras com enorme expressividade, vincada ainda mais pela voz de El Cigala. Seguem-se Veinte Años e Lágrimas Negras, esta última que significa o iniciar do projecto, tornando-se, portanto, uma escolha óbvia; é ainda o tema com a maior variedade de instrumentos, incluindo um saxofone brilhante. Em Niebla del riachuelo somos apaziguados pelo ritmo lento e o violino melódico, tal como se um denso nevoeiro nos consumisse aos poucos. Córazon loco volta a incutir um outro ritmo, muito por culpa de uma guitarra mais célere e provocadora.
Se me olvidó que te olvidé e Vete de mí estabelecem concordância na voz, arrependida e saudosa; mas, ao mesmo tempo, o ritmo musical revela-se contrário, apresentando uma dupla ambiguidade. La bien pagá, a faixa mais longa, é genial ao ponto de criar múltiplas conversas entre o piano, o contrabaixo, e a voz, que se vão interpelando de forma clara. A opção de incluir um pequeno coro acaba por vingar, entregando muito mais carisma ao tema. Este álbum acaba por terminar com Eu Sei Que Vou Te Amar, combinada com a declamação da letra de Coração Vagabundo, por Caetano Veloso; algo verdadeiramente apoteótico.
As melodias caribenhas aliam-se de forma absoluta aos ritmos do flamenco, criando um género único, volátil e dinâmico, que parece crescer e amadurecer, para no final desvanescer alegre e dramaticamente. Trata-se de um disco repleto de fabulosas interpretações, oportuno para quase todas as ocasiões e merecedor de uma nota perfeita.
Pode ouvir aqui o álbum na íntegra:

1 comentário:

Rodrigo Ribeiro da Fonseca disse...

Sonoridades realmente muito interessantes, aqui explicitadas e explicadas de forma brilhante

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