Uma Verdade Inconveniente


Não, não se trata de uma análise ao documentário sobre Al Gore e a sua inconveniente apresentação de «slides», ou ainda uma dissertação acerca da obesidade na América do Sul e a sua culpa formada no que toca à amarga quebra de açúcar do passado Natal. Até porque cá em casa no Natal não há cá disso, só se come salgadinhos.
Desde criança que sonho em distribuir publicidade, e, quando confrontado com a escolha entre isso e ser jogador de futebol, decidi enveredar por esse caminho. Sim, porque nessa altura o Eusébio não ganhava 4 contos por mês mas andava por aí, e eu não era gajo para andar de meias rotas. Hoje realizei esse sonho. Porém, o tiro saiu-me uns quantos furos abaixo, quando a única coisa que subiu foi a minha dor de costas e o peso do mealheiro. Basicamente, o suficiente para me fazer repetir a experiência vezes sem conta.
Egocentrismo
Que as pessoas não queiram receber o panfleto de publicidade, isso eu entendo, apesar de não custar nada abrir o vidro e esticar a mão, isto se o vidro não estiver já aberto, o que só obrigaria a esticar a mão. É claro que há parvos em todo o lado, isso ou então grande parte dos portugueses sofre de síndrome do túnel carpal. Mas o extremo é outro: aqueles que pura e simplesmente ignoram quem ali está a trabalhar, continuando a olhar em frente ou até mesmo desviando a cara para o outro lado. Não sei de onde é que este português snob surgiu e de que raízes aprendeu estes costumes tão egocêntricos, mas é impressionante ver tanto individualismo num único ser.
Ainda assim, existe um detalhe que evidencia uma situação ainda mais assustadora. A realidade é simples, quanto melhor fôr o carro, mais provável é vermos a entrega do panfleto ser recusada. Em pratos limpos: quanto mais alto é o nível económico de alguém, maior é a sua tendência para o menosprezo pelos demais. E apenas me levou duas horas para me dar conta deste facto, e, quando um topo de gama descia a rua, já fazia contas à probabilidade de fazer figura d'urso. É ainda importante referir que existem diferentes packs, entre os quais se contam o estático aspirante a mimo, e os intemporais Três Macacos Sábios, dependendo, é claro, do número de bestas que se encontrarem dentro da viatura.
É realmente assustador encontrar uma linearidade quase rigorosa entre estes dois aspectos, o que mostra muito de um povo que nunca foi mal-habituado e agora parece começar a sê-lo. Se calhar a crise vem para pôr tudo na linha, mas enquanto dá umas «réguadas» nos ricos, atira os pobres para a miséria.

Nota: Decidi fugir um pouco à minha escrita habitual, tentanto explorar uma polivalência benéfica, escolhendo, neste caso, a crónica humorística. Penso que a ironia e o sarcasmo são geralmente as melhores armas para combater assuntos de cariz importante. Fora o descrito no texto, senti-me útil, pela primeira vez trabalhei para os meus objectivos e finalmente encontrei um trabalho que posso executar. Espero voltar a fazê-lo várias vezes mais, porque bem necessito.

9 comentários:

Anónimo disse...

Muito bom! Aquela introdução já me tinha surpreendido mas o que vem depois está bastante melhor :D

Sara disse...

Sabes que distribuir panfletos nos semáforos (pelo que percebi, foi o caso) é bem diferente de distribuí-los na rua, confrontando as pessoas.
Nos semáforos, para o condutor, é complicado distinguir quem vem pedir ou quem vem distribuir.
É como escreveste, há parvos em todo o lado. E esse egocentrismo que falas é frustrante, etc, mas em alguns casos justificável, no meu entender. Lá está, como em tudo, não se pode generalizar.
Fico muito contente que tenhas tido esta experiência.

Francisco Morgado Gomes disse...

Não receber o panfleto é justificável, claro, apesar de ter El Corte Inglés escrito na camisola e tentar dizer "Publicidade" através do vidro.
Porém, não olhar sequer para uma pessoa é do mais baixo que existe. Se o condutor acha que é um pedinte, olha e acena, dizendo que não. Mas não olhar, achando-se do mais superior que existe, é muito muito feio.

Matilde Horta disse...

Muito bem Chico. Foi muito bem pensado mudar um pouco o discurso do blog!
Parabéns pelo texto.

Matilde Horta

Luísa disse...

muito bem, chico. este texto também ajuda a reflectir sobre os nossas acções que, por vezes, nos parecem as mais acertadas e esse é quase nunca o caso.

Sara disse...

Concordo plenamente.
Como te disse, era só outra perspectiva.

Juca disse...

Boa fuga, Francisco... Boa fuga...

Mauro disse...

Acho que esse vídeo ilustra bem como é receber um panfleto na rua..ou recusar um panfleto na rua.

http://www.youtube.com/watch?v=xF9t9HAQmSg

Francisco Morgado Gomes disse...

Muito bom. Obrigado pelo comentário e por ter partilhado o seu vídeo. Possivelmente publico-o aqui no blog, talvez como cabeçalho deste mesmo post.

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