A infeliz politiquice


Durante alguns segundos corri os olhos pela página, não encontrei nada que me indicasse a presença de uma secção de comédia. Também não vi nenhum indício de uma crónica humorística ou satírica. Não quis acreditar, mas era mesmo verdade, e triste.
Doce ou travessia!
Rezava assim um artigo do Expresso do dia 26 de Novembro:
«Apesar da anunciada falta de vocação e meios para gerir pontes, Menezes, [Presidente da Câmara de Gaia], acaba de anunciar cinco novas travessias no Douro, a construir nos próximos 10 anos. O projeto engloba um túnel e quatro novas pontes, uma das quais ciclo-pedonal e à cota baixa. A estimativa de custos das cincos estruturas é 180 milhões de euros. O projeto não foi nem será discutido com Rui Rio, atitude justificada por Firmino Pereira, [vice-presidente da Câmara de Gaia], com a "a falta de diálogo do lado de lá".»
Já todos ouvimos falar da oferta dos famosos «espremedores de sumo» com que os Gato etiquetaram Valentim Loureiro. Este senhor - que se não fosse a lei do número de mandatos máximo ficaria eternamente à frente da Câmara de Gondomar - é ligado a várias fraudes e esquemas, e a oferta de electrodomésticos é das mais simples. Menezes vai um nadinha mais longe,e em vez de microondas oferece travessias entre Gaia e Porto. Quatro pontes e um túnel! Em tempos de crise, um bem haja para esta oferta de um bem público tão importante e primário.
O projecto
Menezes chama-lhe «Travessia para uma Década» e prevê-se que custe 180 milhões de euros. Talvez arriscasse chamar-lhe «Abuso Inimaginável do Dinheiro Público e das Pessoas». Soa bastante melhor. O Presidente da Câmara Municipal de Gaia quer, em 10 anos, construir três pontes rodoviárias, uma pedonal e um túnel. Isto quando se recusa a assegurar os gastos de manutenção da Ponte do Infante. Mas este é outro assunto, no qual o Metro do Porto não deixa de fazer má figura. A questão que se aborda é a irresponsabilidade com que certos autarcas governam o nosso país. O grande problema é que a nossa política é feita disto mesmo, de jogos de poder mesquinhos, a fazer lembrar uma disputa de crianças.
Com Rui Rio fora da rota da presidência da Câmara do Porto - está actualmente no terceiro mandato -, Menezes tem o «tapete vermelho estendido», e o seu interesse neste cargo já é há muito discutido na esfera pública. Caso a sua candidatura se verifique, é melhor que, para bem dos portuenses e dos portugueses, Luís Filipe Menezes não vença. Não são quatro pontes e um túnel que nos vão enriquecer, vão, muito pelo contrário, empobrecer-nos. Depois de cinco novas travessias, sabe-se lá quais os outros bens de primeira necessidade em que Menezes gastará o dinheiro público. Precisamos de líderes que cheguem ao poder como tal, e assim lá permaneçam; fartos de politiquices estamos nós.
Para quê electrodomésticos se depois não temos com que os usar? Para quê quatro novas travessias rodoviárias se depois não temos carro para as atravessar? Para quê gastar 180 milhões de euros se depois temos serviços públicos sem qualidade? O povo precisa de comida na mesa, médicos nos hospitais e uma assistência social garantida. São abusos como estes, vindos de quem a nível local pode fazer a diferença, que são realmente tristes e infelizes.

3 comentários:

Anónimo disse...

Como é possível construir-se uma ponte ligando duas cidades e, ninguém assume a sua propriedade?
Será que, se eu a fechar e cobrar portagens alguém me pode impedir? Se não é de ninguém, será de quem primeiro a reivindicar!
Como é possível autorizarem-se obras, em qualquer uma das cidades servidas por esta ponte, sem que haja um proprietário assumido?
Será que não podemos pedir responsabilidades a quem andou a gastar dinheiros públicos deste maneira, à revelia das autarquias onde as implantaram?
PF deixem de brincar connosco. Pode sair muito caro. Seventy-six

Francisco Morgado Gomes disse...

Caro(a) seventy-six,
Uma outra coisa que não se percebe é o facto de ninguém colocar ordem neste circo.
Como é que é possível que um senhor, por ser Presidente da Câmara, possa vir a público dizer tamanhas barbaridades, sem que ninguém o venha corrigir? Com todo este poder, ou ostentação do mesmo, não sei onde vamos parar.

Anónimo disse...

A verdade é que não aprendemos nada! Depois de todos estes anos a fazer política barata e a esbanjar dinheiros públicos, que estamos todos (uns mais que outros) a pagar com tanto esforço, ainda há quem se deixe levar por estes discursos populistas!
Enquanto houver crentes, ingénuos, néscios ou "interessados", haverá sempre alguém que se aproveite.
seventy-six

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