Ensino Superior foi à rua

(Foto de Sérgio Miguel Santos/ASF)
14h00. Concentração marcada no Marquês; mais um movimento, mais uma mostra de indignação, mais uma manifestação. Os Estudantes do Ensino Superior, grupo do qual este autor orgulhosamente faz parte, iam-se juntando perto do monumento àquele que reconstruiu a capital. Em causa estavam os cortes planeados pelo Governo para a Educação e, como é claro, suas duras represálias.
A indignação de todos e de cada um
Uma manifestação é "sempre" de um grupo, é suposto que todos os presentes protejam um ideal ou tenham visão em comum; contudo, também podemos falar de um pensamento individual por parte de cada sujeito desse grupo. Diversos eram os gritos de ordem que exigiam uma abolição das propinas, outros que punham em causa o plano de austeridade, e ainda outros o próprio Governo. Eu, como estudante e cidadão, não tenho a obrigação de concordar com o que foi gritado, simplesmente não o fazendo. De facto, enquanto não era a favor de um "Propinas Não!", puxava dos pulmões para um "A propina dói!"; e quando gaguejava no "Acção social não existe em Portugal", não vacilava no "Fazia falta já uma bolsa uma bolsa".
Com isto apenas quero dizer que, sejamos a favor ou contra as medidas deste Governo, de esquerda ou direita, não podemos ser cegos ao ponto de não ver o que se passa no Ensino Superior - e não só. Existem estudantes sem bolsas quando as deviam ter, estudantes endividados para pagar os cursos, ex-estudantes que só o são devido a problemas financeiros. E ainda há outro caso extremo: na última semana saiu, nos media em geral, este artigo que alertava para o facto de existirem estudantes, na Universidade do Algarve, a passar fome. Segundo o Expresso, em Aveiro a situação é idêntica. Para ajudar à festa, só mesmo a seguinte pérola descoberta há algumas semanas: 123 alunos ricos da Universidade do Minho, alguns de famílias com empresas com lucros a chegar à ordem do milhão de euros, recebem bolsas de estudo - ver notícia aqui. De facto, quando nos falta a moral e a ética, falta-nos tudo.
A manifestação
Acompanhados de uma forte cobertura mediática e por uma abismal «escolta» policial, eram várias as centenas de estudantes que partiram, em marcha lenta, em direcção à Assembleia da República. Faixas, megafones e cartazes, tudo picou o ponto na manifestação. Músicas é que iam faltando, e ao fim de quatro horas a cassete já tinha a fita gasta e emaranhada. Em falta estiveram também a Federação Académica do Porto e a Associação Académica de Coimbra (por motivos eleitorais), que certamente teriam dado um corpo diferente à manifestação.
Na Rua de São Bento os corpos cercavam-se e as vozes pareciam multiplicar-se. Não diria como vítimas de ventríloquos, mas por vezes a estética dos megafones fez desvanecer a autonomia ideológica. Muito se sacrifica em prol do volume. Assim começou, assim terminou: o megafone funcionou como o palco do destaque; os concorrentes foram chegando: dez minutos de espectáculo frente à Assembleia bastaram para dispersar e rematar o movimento.
Ainda assim, funcionámos como um e lançámos o desafio. A indignação fez-se sentir, e se o eco não chegou ao interior da Assembleia (Captain Obvious), chegou aos jornais, o que demonstra que o assunto é delicado e a luta é legítima. Mudam-se os tempos, mudam-se as verdades, e a força estudantil já não é o que era. Contudo, ficou o «cartão amarelo directo» a esta entrada a pés juntos do Governo sobre os jovens portugueses, universitários ou não. O resultado da partida vai caminhando, como sempre, a favor dos mesmos.
A pergunta é: quem é que protege os que não têm hipótese de, condignamente, frequentar o ensino universitário? O Governo? Até agora, nada! Tal como eu, felizmente há quem tenha possibilidades de pagar a faculdade sem qualquer ajuda adicional, mas não é isso que nos vai impedir de mostrar indignação perante esta âncora da miséria a que outros estão amarrados.
Com o contributo de Pedro Pereira

4 comentários:

Anónimo disse...

muito bom o texto

goma

Anónimo disse...

É de facto imoral o que, desde sempre,temos vindo a assistir com esta questão das propinas. A pouca vergonha continua pois nem sempre os que ficam isentos são os menos abonados mas sim os mais descarados.
A culpa, porém, é de todos nós portugueses. Esta forma de estar na vida recorrendo sempre à lei do mneor esforço, faz com que nos contentemos com pouco e, por isso, basta-nos sistemas a meio gás. Basta parecer que funciona para nos darmos por satisfeitos.
Se os jovens actuais não derem um safanão nisto, vamos continuar, cantando e rindo. seventy-six

Francisco Morgado Gomes disse...

Caro(a) seventy-six,
É triste pensarmos que há quem não tenha e assim fique, e que quem tenha faça esforço por ter mais. Assim se faz uma bela analogia entre esta situação do Ensino Superior e as finanças/fiscalizações em Portugal.
Dizia-me hoje um amigo que a fiscalização era necessária, mas apenas como medida passageira, até mudarmos a mentalidade do povo. Claro está, com um investimento na educação - que belo paradoxo em que nos viemos meter.
De facto, o que está mesmo mal é esta mentalidade retrógada e individualista, de indivíduos que se esquecem que vivem num país, em sociedade, perante outros iguais a eles.

Anónimo disse...

Em média cada aluno custa ao Estado cerca de 5000 euros (aluno do ensino superior). Verdade seja dita existe uma sobrelotação do ensino superior visto que o actual PR soube dar cabo do bom ensino profissional que Portugal tinha. Estas manifestações ao fim ao cabo de nada servem o meu conselho - estudem! Nenhum país civilizado (ex: Grã-Bretanha) tem qualquer ajuda de custo aos estudantes, apenas e sim aos bolseiros. A banalização do ensino superior ditou a desgraça do mesmo, temos universidade sobre lotadas de ignorantes, e de gente burra a quem datas como o 1º de Dezembro são apenas "um feriado", gente sem capacidade. Neste último século tudo o que era exclusivo (positivamente), como o ensino superior, ou até o liceu, se transformou num direito...mais ainda num dado adquirido! Conceito-alvo e propriedade do caciquismo esquerdista...Assim não se avança, não faltará muito até a criadagem de copa ter diploma... Diploma credível deviam ter o ministro, ainda mais, mérito credível, berço honrado e não o mero organismo partidário-maçónico...


Miguel Santana Botton

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