Cinema #17 - Midnight in Paris


Midnight in Paris (7.5 em 10)
Assim se apresenta Woody Allen, uma vez mais, ao mundo do cinema. Numa primeira análise, anterior à visualização do filme, o comentário sobre a escolha do actor principal - Owen Wilson - é algo que não pode faltar. Apesar de estranha, não deixa de vingar, já que o actor se mostra ao nível da personagem que lhe foi entregue. O filme abre com uma série de frames de Paris, mostrando toda a magia que envolve a cidade das luzes, com ou sem a chuva.
Realidade e nostalgia
Juntamente com os seus sogros e a noiva Inez (Rachel McAdams), Gil (Owen Wilson) viaja para Paris, cidade que idolatra, sem deixar de mostrar o seu desejo em lá viver. Desde o início que o espectador percebe a algo disfuncional relação entre Gil e Inez; a afectividade parece correr numa rua de um sentido e a compatibilidade nem sequer corre. Enquanto Inez parece preocupada em agir de forma socialmente correcta e se interessa por intelectualidades supérfluas, Gil mostra-se algo leviano e despreocupado, seja com materialidades como na generalidade dos assuntos. Gil trabalha no ramo cinematográfico, mas a sua carreira de sonho é a de escritor, algo a que este aspira, mas sem qualquer tipo de experiência.
Com o seu interesse implícito em áreas artísticas, que requerem bastante criatividade, Gil é invadido pela nostalgia, o desejo de ter vivido naquele espaço mas num tempo diferente: os anos 20. Assim, Paris torna-se o bastião de um sonho real e exequível, enquanto que os anos 20, época na qual a criação não conheceu limites, formam o fim último da sua imaginação. Um dia, deambulando sozinho pelas ruas de Paris, pouco depois de as badaladas do sino assinalarem a meia-noite, Gil é abordado por um grupo de pessoas num Peugeot antigo. Já sob o efeito do álcool, mostrou-se pouco céptico e acabou por entrar no carro, juntando-se à festa. Sem saber, Gil embarca para a viagem que sempre quis, essa que nos presenteia com uma visão apurada sobre a tão desejada época.
«Regresso» ao passado
Nesta longa-metragem Woody Allen acaba por nos mostrar uma nostalgia diferente mas verdadeira, a saudade daquilo que não vivemos mas que não deixamos de sonhar. Gil sentia isso mesmo, um assaz desejo pelos anos 2o parisienses, pelas luzes, ruas e, sobretudo, pelos artistas e génios que ali pensaram e criaram. Quando se pensa assim, só mesmo uma fuga à realidade nos consegue satisfazer; e para Gil esta também funcionou como antídoto, eliminando o pungente parasita que lhe «comia» a carreira e a vida.
No que toca à banda sonora, a escolha recai especialmente sobre Cole Porter e Enoch Light and The Light Brigade, que nos dão a mood necessária para toda a viagem. Acaba por ser uma produção bastante interessante, em que Woody Allen mostra uma comédia romântica diferente, com um argumento que inicialmente parece corriqueiro mas acaba por ser bastante criativo.

2 comentários:

Pedro Pereira disse...

A parte que mais me "chocou" foi quando o sotôr teve de decidir entre ficar no passado e viver com a sua "musa" (grande musa, diga-se) ou regressar à realidade. Num qualquer filme da Disney talvez lá ficasse, feliz para sempre... No Meia-Noite em Paris regressou: foi burro. Nem todos têm a oportunidade de viver em sonhos.

Pedro Pereira disse...

Ou então a nostalgia é uma treta.

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