
No início do século XX, Bernardo Soares, semi-heterónimo de Fernando Pessoa, escreve o "Livro do Desassossego". Quase um século depois, João Botelho entrega ao público a sua perspectiva da obra, sem receios ou assombros. Não seguindo uma narrativa coesa, o filme não tem o objectivo de apresentar uma história, sem fracturas ou paragens. Ele é o resultado de fragmentos soltos da vida de um solitário deambulante.
Bernardo Soares
Coxo e com bigode, ele é a figuração superficial de uma personagem de consciência profunda que, dificilmente, seria melhor caracterizada com outro actor. Corrigia o seu claudicar com um simples guarda-chuva, não querendo, contudo, mascará-lo com as adversidades metereológicas. Fugazmente, rabiscava num papel o que o inquietava, o que lhe retirava o sossego que nunca fora seu. Parcialmente misantropo, Bernardo Soares refugia-se na sombra das conversas, gosta de «medir» o ser humano, mas não contactar com ele. Cláudio da Silva é simplesmente natural no papel que desempenha. Não fosse a existência de uns quantos anacronismos, deliberados, e o espectador sentiria estar a ver Bernardo Soares em pessoa/Pessoa.
Coxo e com bigode, ele é a figuração superficial de uma personagem de consciência profunda que, dificilmente, seria melhor caracterizada com outro actor. Corrigia o seu claudicar com um simples guarda-chuva, não querendo, contudo, mascará-lo com as adversidades metereológicas. Fugazmente, rabiscava num papel o que o inquietava, o que lhe retirava o sossego que nunca fora seu. Parcialmente misantropo, Bernardo Soares refugia-se na sombra das conversas, gosta de «medir» o ser humano, mas não contactar com ele. Cláudio da Silva é simplesmente natural no papel que desempenha. Não fosse a existência de uns quantos anacronismos, deliberados, e o espectador sentiria estar a ver Bernardo Soares em pessoa/Pessoa.
O poder dos sentidos
Cenas brilhantes, intermináveis e complexas falas, personagens irreverentes e domadas pelos vícios do quotidiano, é assim que, incompletamente, caracterizo esta produção. João Ribeiro, director de fotografia, desenvolve um trabalho harmonioso, produzindo cenas de uma magnitude visual arrebatadora. Tudo é genial, as sombras, as luzes e a combinação das diferentes tonalidades; é inquestionável a alma que este homem trouxe ao filme. A perplexidade torna-se contagiante na plateia, à chegada de um novo momento, cada um com uma genialidade própria, imerso nas palavras que adornam as falas e nas cores que pintam a tela. As caracterizações das personagens, dotadas de uma importância capital, falam por si só: as rugas vincam um carácter austero, os lábios pintados de um vermelho quente provocam no espectador uma sedução mais imediata e real, enquanto que a nudez faz com que o espectador sinta o despertar das pálpebras.
Cenas brilhantes, intermináveis e complexas falas, personagens irreverentes e domadas pelos vícios do quotidiano, é assim que, incompletamente, caracterizo esta produção. João Ribeiro, director de fotografia, desenvolve um trabalho harmonioso, produzindo cenas de uma magnitude visual arrebatadora. Tudo é genial, as sombras, as luzes e a combinação das diferentes tonalidades; é inquestionável a alma que este homem trouxe ao filme. A perplexidade torna-se contagiante na plateia, à chegada de um novo momento, cada um com uma genialidade própria, imerso nas palavras que adornam as falas e nas cores que pintam a tela. As caracterizações das personagens, dotadas de uma importância capital, falam por si só: as rugas vincam um carácter austero, os lábios pintados de um vermelho quente provocam no espectador uma sedução mais imediata e real, enquanto que a nudez faz com que o espectador sinta o despertar das pálpebras.
Alguns aspectos
Por vezes, o ser humano perde-se em vícios marginais à essencialidade da vida e João Botelho tende a reforçar esta realidade no filme. A libido e as drogas atacam repetidamente o consciente, atrasando o nosso pensamento, enchendo-o de um prazer falso e dissimulado. Ainda assim e, respeitando o corpo do livro, vão aparecendo algumas cenas soltas que espantam, pelo seu forte significado e impacto, a plateia. Somos, entretanto, apaziguados por alguns interlúdios musicais - com a participação fantástica de Carminho ou de Ricardo Ribeiro, ambos em destaque. A força da voz apura o nosso campo sensorial e prepara-nos para mais uma "overdose" de metáforas e paradoxos.
Provavelmente, a presença de legendas ajudaria a uma melhor compreensão do filme, a fixar o conteúdo da palavras pronunciadas, por vezes longas e insignificáveis, porque somos tentados a decifrar o seu propósito da mesma forma como analisamos um poema. Só que em frente à tela, temos apenas céleres segundos para esta operação e não somos auxiliados pela caneta nem pelo papel. Assim, perdemos alguns momentos (sufocados pela grandeza das imagens) no emaranhado fio da narrativa e arrisco a pensar que é impossível tal não acontecer, com a maior parte dos espectadores.
Recomendo, vivamente,esta belíssima peça de arte do cinema português. Com a merecida atenção, o espectador embarcará no universo pessoal de Fernando Pessoa, enquanto mente criadora e desassossegada. O melhor será também aventurarmo-nos no "Livro do Desassossego", o que tentarei fazer num futuro próximo.

6 comentários:
Acho que escreveste este post de maneira a que, quem não teve oportunidade de ver o filme/ler o livro, entende perfeitamente o que João Botelho criou. Está mesmo muito bom, Chico.
Saí do teatro a pensar no filme de uma forma negativa, mas nem sequer tinha prestado atenção aos pormenores fotográficos de toda esta produção, e acho fantástico que tenhas referido isso, bem como o nome da Carminho, por exemplo.
* entenda perfeitamente (...)
Bom comentário :)
Concordo plenamente...
Está muito bem escrito francisco. Gostei muito.
Onde e que se pode ir ver o filme Desassossego?
Pelas informações que tenho, o filme já não se encontra em exposição.
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