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Cinema #19 - Blade Runner

Em 2019 uma realidade diferente habita a Terra: evoluindo sem pudor, a tecnologia atinge um patamar assinalável, transformando o nosso mundo e a maneira como vivemos. A busca pela Inteligência Artificial perfeita não soçobra, surgindo um tipo de andróide completamente autónomo, dotado de emoções e de uma aparência primorosa - o Replicant. Desenvolvidos pela Tyrell Corporation, estes andróides são enviados para colónias no espaço, uma vez que a sua tecnologia avançada e a sua atitude violenta valeu-lhes a erradicação do globo terrestre.
O futuro
Sugados por um futurismo sujo e sombrio, somos abarcados por uma realidade diferente, uma sinistra metrópole industrial cobre agora Los Angeles, ocultando o horizonte. As ruas são completos esgotos, onde as massas populacionais se deslocam em manada, evitando a imundície que por ali navega.
Rick Deckard - Harrison Ford - já fora, em tempos, um Blade Runner, uma unidade policial com o objectivo específico de identificar e eliminar quaisquer Replicants que habitem a Terra. Recentemente, foi sabido que quatro destes andróides tinham logrado escapar de uma colónia espacial, pelo que se encontravam à solta naquela mesma urbe. Deckard foi então chamado de volta ao serviço, visto a particular dificuldade que estes quatro fugitivos estavam a oferecer à polícia. Ainda que relutante, Deckard viu-se forçado em aceitar o trabalho.
Com a existência do novo modelo Nexus 6, os Replicants estavam mais avançados, ainda que nunca atingissem uma idade superior a quatro anos. Deste modo, esta prerrogativa tornava-se a questão central da sua presença na Terra; liderados por Roy Batty - Rutger Hauer - estes regressaram para encontrarem o seu criador, de forma a contrariarem a sua diminuta e penosa esperança de vida. Cientes das adversidades que os esperam, mas favorecidos com capacidades por vezes superiores ao normal, estes farão tudo para quebrar as grilhetas da subserviência.
Not so artificial
A inteligência artificial, em especial no elevado nível a que nos é apresentada, levanta enormes questões de ética. Andróide ou não, o campo emocional de um Replicant é de tal modo real que se assemelha ao de um ser humano. Desta forma, será moral e eticamente aceitável a produção de tais andróides para satisfazer as necessidades do Homem? Com o desenrolar do filme, o espectador vai-se apercebendo que a questão se transforma em uma outra: Quem o mais humano, o andróide escravizado que tenta sobreviver ou o Homem que o subjuga?
Blade Runner não é um qualquer, é um dos melhores entre outros como a saga Star Wars e 2001: Odisseia no Espaço; realizado por Ridley Scott é um belíssimo nome da ficção científica. Nota ainda para a banda sonora de tom futurista e perfeitamente cooperante com o que os olhos vêem, contando com algumas criações do conhecido Vangelis.
"Roy: Quite an experience to live in fear, isn't it? That's what it is to be a slave."

Cinema #18 - No Country For Old Men

Em 2007, os irmãos Cohen apresentaram Este País Não é Para Velhos, longa-metragem - baseada no romance de Cormac McCarthy - que viria a vencer 4 óscares, por entre 103 prémios e 49 nomeações. Os palmarés não enganam nem um bocado, o filme é realmente bom, fruto de soberbos detalhes e personagens desconcertantes.
1980, Texas, o local onde, para o Mundo, ainda se brinca aos cowboys e pistoleiros. A verdade é que por lá ficaram as planícies, os chapéus, as cidades desertas, naquele Estado onde o xerife era e é a lei. Foi essa lei a prender Anton Chigurh (Javier Bardem), que estava na posse de uma arma algo singular, um dispositivo à pressão, usado para matar gado. Não durou muito na esquadra, asfixiando o delegado com as algemas que o manietavam, processo no qual os olhos de Chirgurh, translúcidos de prazer, não mostravam temor ou misericórdia.
Fuga e Perseguição
No meio do deserto Llewelyn Moss (Josh Brolin) dá de caras com um cenário de carnificina. Corpos pútridos, trespassados por balas, num cenário que devia ter testemunhado uma simples transacção de droga. Ignorando o único sobrevivente, que lhe implorava por água, este segue um rasto de sangue que corria para fora daquele panorama bélico; no seu final o escapulido, morto, com a incólume mala do dinheiro. Cegado pela exorbitante quantidade de dinheiro, Llewelyn abandona o local com a mala. Nessa mesma noite sente que tem de ajudar o homem que ignorou, e eis que o encontra baleado; uma carrinha surge no horizonte, e inicia a perseguição a Llewelyn. Este, apesar de atingindo, escapa, percebendo o perigo em que se envolveu.
No dia seguinte, Anton Chigurh é levado àquele local por dois homens, que lhe entregam um dispositivo de localização da mala. Depois de aceitar a missão de perseguir o seu possidente, faz questão de matar os dois homens, disparando sobre eles. Mais tarde, é o xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones) a encontrar todo aquele cenário; reconhecendo a carrinha de Llewelyn, decide procurá-lo, uma última missão antes de se reformar. Assim começa a perseguição de três homens, que apesar de correrem, não sabem quem procuram ou de quem escapam.
Personagens
São as três personagens principais e as suas caracterizações a dar o brilhantismo à perseguição. Llewelyn Moss, um homem trabalhador, vê a sua vida invadida por dois milhões de dólares, e, corrompido, busca a segurança com que poderá manter o dinheiro. Ed Tom Bell persegue o simbolismo da reforma bem sucedida, a resolução de um crime para assinalar o fim último da sua carreira como xerife. Apesar de nenhum deles saber, a maior ameaça de ambos é Chigurh, um psicopata assassino, indomável e sedento de sangue, que perseguirá a mala até esta ficar na sua posse.
A originalidade do argumento (Óscar Melhor Argumento Adaptado) é o ponto fulcral deste thriller, que com um papel simplesmente brilhante de Javier Bardem (Óscar Melhor Actor Secundário), cativa o espectador até ao seu derradeiro final. Aos irmãos Cohen foram ainda atribuídos os Óscares de Melhor Realização e de Melhor Filme. Genial e obrigatório.

Cinema #17 - Midnight in Paris


Midnight in Paris (7.5 em 10)
Assim se apresenta Woody Allen, uma vez mais, ao mundo do cinema. Numa primeira análise, anterior à visualização do filme, o comentário sobre a escolha do actor principal - Owen Wilson - é algo que não pode faltar. Apesar de estranha, não deixa de vingar, já que o actor se mostra ao nível da personagem que lhe foi entregue. O filme abre com uma série de frames de Paris, mostrando toda a magia que envolve a cidade das luzes, com ou sem a chuva.
Realidade e nostalgia
Juntamente com os seus sogros e a noiva Inez (Rachel McAdams), Gil (Owen Wilson) viaja para Paris, cidade que idolatra, sem deixar de mostrar o seu desejo em lá viver. Desde o início que o espectador percebe a algo disfuncional relação entre Gil e Inez; a afectividade parece correr numa rua de um sentido e a compatibilidade nem sequer corre. Enquanto Inez parece preocupada em agir de forma socialmente correcta e se interessa por intelectualidades supérfluas, Gil mostra-se algo leviano e despreocupado, seja com materialidades como na generalidade dos assuntos. Gil trabalha no ramo cinematográfico, mas a sua carreira de sonho é a de escritor, algo a que este aspira, mas sem qualquer tipo de experiência.
Com o seu interesse implícito em áreas artísticas, que requerem bastante criatividade, Gil é invadido pela nostalgia, o desejo de ter vivido naquele espaço mas num tempo diferente: os anos 20. Assim, Paris torna-se o bastião de um sonho real e exequível, enquanto que os anos 20, época na qual a criação não conheceu limites, formam o fim último da sua imaginação. Um dia, deambulando sozinho pelas ruas de Paris, pouco depois de as badaladas do sino assinalarem a meia-noite, Gil é abordado por um grupo de pessoas num Peugeot antigo. Já sob o efeito do álcool, mostrou-se pouco céptico e acabou por entrar no carro, juntando-se à festa. Sem saber, Gil embarca para a viagem que sempre quis, essa que nos presenteia com uma visão apurada sobre a tão desejada época.
«Regresso» ao passado
Nesta longa-metragem Woody Allen acaba por nos mostrar uma nostalgia diferente mas verdadeira, a saudade daquilo que não vivemos mas que não deixamos de sonhar. Gil sentia isso mesmo, um assaz desejo pelos anos 2o parisienses, pelas luzes, ruas e, sobretudo, pelos artistas e génios que ali pensaram e criaram. Quando se pensa assim, só mesmo uma fuga à realidade nos consegue satisfazer; e para Gil esta também funcionou como antídoto, eliminando o pungente parasita que lhe «comia» a carreira e a vida.
No que toca à banda sonora, a escolha recai especialmente sobre Cole Porter e Enoch Light and The Light Brigade, que nos dão a mood necessária para toda a viagem. Acaba por ser uma produção bastante interessante, em que Woody Allen mostra uma comédia romântica diferente, com um argumento que inicialmente parece corriqueiro mas acaba por ser bastante criativo.

Cinema #16 - Snatch & Tropa de Elite 2

Todos os meses será aqui colocado um post (pelo menos) sobre Cinema. Alguns seguirão um formato como o aqui apresentado: vários filmes recomendados, cada qual com a sua breve análise. Uma vez ou outra escreverei um artigo sobre um único filme, não por ser melhor dos que aqui constarem, mas, provavelmente, devido a uma motivação acrescida e momentânea.
Snatch - Porcos e Diamantes (8.5 em 10) Trailer acima
Snatch impressiona. É um daqueles belos filmes à Inglaterra dos anos 90: assaltos, tiros, violência e muitos, muitos palavrões - mas nada disto é gratuito, fugindo à comum utilização desenfreada e sem sentido de todos estes elementos. Deste modo, não se deixe enganar, Guy Ritchie vai muito para além de tudo isto, construindo um fantástico e intrépido argumento. O humor é brilhante e um dos elementos constantes da história, apoiando-se num guião fantástico desde a primeira à última fala. Tudo gira à volta de um diamante roubado, que por sua vez vai girando entre "proprietários" que o cobiçam e vão tentando enganar e eliminar os seus "adversários". Esta cobiça provoca uma série de eventos, envolvendo cada vez mais indivíduos na situação, directa e indirectamente, e alguns destes nem sequer sonham com a existência do tal desejado mineral. Na lista de actores surgem nomes como Brad Pitt, Benicio Del Toro, Vinnie Jones e Jason Statham. Este último desempenha o papel de Turkish, um promotor de combates de boxe que é geralmente o nosso narrador. A história é original, repleta de humor e reviravoltas. Obrigatório!
Tropa de Elite 2 - O Inimigo Agora É Outro (8 em 10) Trailer aqui
O Coronel Nascimento voltou, mas, como o título refere, o inimigo é outro. Depois de um sucesso mundial do primeiro Tropa de Elite, que mostrou a situação das favelas do Rio de Janeiro, a sequela só poderia prometer bons resultados. Contudo, seria absurdo se a história se revelasse idêntica ao primeiro filme, mas Tropa de Elite 2 conseguiu escapar em grande forma da temática da primeira produção. Ainda que se passe no mesmo cenário - o Rio de Janeiro -, o argumento é completamente diferente. Depois de um percalço dos BOPE no controlo de uma revolta na prisão de segurança de Bangu 1, tudo mudou para Nascimento. Uma promoção faz a personagem principal mudar de rumo; o objectivo já não era matar o maior número de "maconheiros" possível, mas sim aniquilar o sistema que atormenta as favelas cariocas e brasileiras. O enredo torna-se profundo, e diversos são os obstáculos que se colocam entre Nascimento e o fim do sistema. Wagner Moura, Irandhir Santos e Seu Jorge são alguns dos actores que contracenam nesta longa-metragem. Quem viu o primeiro, tem de ver o segundo; quem não viu nenhum, tem, definitivamente, de ver ambos.
Este artigo foi escrito ao som de Gil Scott-Heron (1949-2011) - Winter in America & The Bottle

Cinema #15 - The Ghost Writer


O Escritor Fantasma marca o regresso do trabalho de Roman Polanski às salas de cinema, depois de realizações como Oliver Twist e O Pianista. Se somos atraídos pelo nome do realizador, a vontade de ver o filme aumenta exponencialmente quando abordamos a lista de actores, na qual constam os nomes de Ewan McGregor (Trainspotting e saga Star Wars) e Pierce Brosnan (talvez o melhor Bond, James Bond).
Begginings
O argumento é, ao início, bem simples: um político britânico necessita de um escritor fantasma para completar as suas memórias numa autobiografia, já que o anterior ocupante do cargo morrera, ainda que de forma misteriosa. The Ghost (Ewan McGregor) é um dos candidatos ao cargo, e, apesar de ser o menos convencional, acaba por consegui-lo rapidamente. Pouco depois de aceitar o trabalho é abordado na rua por um motociclista, sendo agredido e assaltado. A personagem principal começa então a perceber as complicações inerentes a esta autobiografia, não imaginando, é claro, a gravidade da situação em que se estava a incluir.
Esse tal político, Adam Lang, interpretado por Pierce Brosnan, viu a sua reputação «queimada» por escândalos recentes ligados aos Direitos Humanos. Este é alvo de ataques públicos por parte de outros políticos e mesmo comuns cidadãos britânicos. Os níveis de suspense vão subindo quando o fantasma se afunda no passado de Adam Lang, encontrando ligações desconhecidas com a CIA. Tudo muda quando, de repente, o escritor encontra alguns pertences de Mike McAra, o seu predecessor, apontando para graves incoerências na história da vida de Lang, que parecia certamente ligado às acusações de que era alvo. The Ghost encontra-se em território proibido, investigando segredos que não deveria violar, colocando a sua própria vida em risco.
Argumento e outros aspectos
Numa história em que as pequenas referências, divulgadas em falas e imagens, são importantes, a acção acaba por jogar com o pensamento do espectador, provocando-o a julgar e a decidir sobre a identidade do culpado. Neste brilhante movimento intencional, Roman Polanski e Robert Harris, escritor do livro, conseguem levar o espectador a pensar na escolha mais óbvia e fácil, para depois revelar que todos os detalhes até aí divulgados encaixam perfeitamente num puzzle ainda mais complicado.
Outro dos aspectos positivos é, definitivamente, a banda sonora. Realizada por Alexandre Desplat, esta auxilia de forma brilhante a história, revelando-se fundamental para o provocar de todas as sensações de suspense e mistério. Acaba por ser um bom filme, merecedor de ser visto por uma ou outra vez. Só vendo o filme o leitor descobrirá o porquê de este não atingir uma classificação mais elevada.
Classificação: 7.5/10

Cinema #14 - The Shawshank Redemption


Nomeado para 7 Oscars, "Os Condenados de Shawshank" conta a arrepiante história de Andy Dufresne - Tim Robbins - quando este é condenado a duas penas de prisão perpétua por um crime que não chegou a cometer. Foi também nomeado para dois Globos de Ouro e é actualmente considerado o melhor filme do mundo pela IMDB.
Julgamento e integração
Em 1947 Andy Dufresne era um banqueiro de sucesso, até ao dia em que foi injustamente julgado por um assassinar a sua mulher e seu amante. Esse julgamento enviou-o para a cadeia de Shawshank para cumprir duas sentenças de uma vida, tantas quantas supostamente ele havia terminado. Andy, ainda incrédulo de tudo o que se tinha passado na sua vida, adoptou desde o início uma posição tímida e calada para com todos os outros prisioneiros. Mesmo na primeira noite, quando existiam provocações para com os novatos, Dufresne nem sequer pestanejou, fazendo Ellis Redding, interpretado por Morgan Freeman, perder uma considerável soma de dinheiro.
Red era o contrabandista da prisão, e foi a ele que Andy se dirigiu um mês depois de chegar a Shawshank, pedindo-lhe um martelo de geologia. O pedido foi atendido e, simpatizando rapidamente um com o outro, começam a tornar-se bons amigos. Porém, existia um grupo de prisioneiros que persistia em espancar e violar Dufresne, ainda que este por vezes tentasse resistir.
Protecção
Com alguns contactos e favores, Red conseguiu que ele e o seu grupo de amigos fossem seleccionados para um trabalho na prisão, o que lhes iria fornecer um dia diferente. Durante esse trabalho, Andy Dufresne ouve as queixas do principal e mais severo guarda prisional sobre os seus impostos, pelo que automaticamente se oferece para ajudar em troca de umas simples cervejas geladas para os seus colegas condenados. O guarda chega até a ameaçar Andy, mas acaba por aceitar a sua ajuda, o que acaba por se revelar um excelente feito para um prisioneiro. Com o desenrolar da acção, até o Chefe da prisão de Shawshank pede ajuda para as contas do estabelecimento, pelo que Andy começa a receber grande protecção, nunca mais voltando a ser incomodado por qualquer prisioneiro.
Reviravolta
Como qualquer preso, Andy pensava em escapar, e apesar do ambiente positivo que se criava em sua volta, começavam a estabelecer-se laços que no futuro poderiam dificultar quaisquer chances. A personagem principal começa a ser traída pelo sistema que ela própria desenvolveu, e, quando o final se aproxima, o presente parece ser o seu único futuro possível. Depois de uma série de eventos, a história, que até aí não tinha sido nada de transcendente, atinge um novo patamar de imprevisibilidade e emoção, conhecendo uma incrível e inesperada reviravolta.
Dotado de vários sentidos e dimensões históricas, "Os Condenados de Shawshank" consegue transmitir uma multiplicidade de sentimentos ao espectador, principalmente o espanto. Ainda que no final ganhe alguns contornos de acção, este é, ao longo de toda a sua extensão, uma verdadeira amostra de alguns valores que o homem deve transportar sempre consigo, seja qual for o ambiente em que ele se insere; entre estes surgem a esperança e a amizade.
Classificação: 9/10

Cinema #13 - José e Pilar


José e Pilar, ainda em exibição num cinema perto de si, chega ao mundo como um relato da vida de José Saramago e Pilar del Rio nos últimos anos do Nobel da Literatura. Filme realizado por Miguel Gonçalves Mendes, foi produzido com gravações do dia-a-dia do casal enquanto Saramago lidava com a sua vida, a de Pilar, e a viagem do elefante.
O Homem
José de Sousa Saramago surge-nos, nesta longa-metragem, despojado do traje egocêntrico que sempre lhe tentaram vestir, sem presunções ou altivez. Apercebemo-nos que, de facto, a pessoa quase ignóbil e inquestionável criada pela imprensa não passava de uma máscara ignorada por Saramago. Este era, como todos nós, um ser humano, normal, e de uma simplicidade inicialmente estranha. Acima de escritor, José Saramago era um Homem, que apenas se distinguia verdadeiramente pela sua forte personalidade, vincada de fundamentados ideais.
Tal como a viagem do elefante, a vida de José Saramago também teve um fim, e, enquanto este o esperava pacientemente, sem pressas, da mesma forma que Ricardo Reis assinalava o inevitável ponto final, queria sempre viver um pouco mais, fruto de um carpe diem em que diariamente se envolvia. Em José e Pilar damos conta do célere quotidiano do escritor português, que viajava em torno do globo, retirando um pouco de si para dar aos outros, àqueles que nem sequer conhecia, durante um tortuoso processo que viria depois a acamá-lo.
A Mulher
Pilar del Rio é a personificação da letra capitular da palavra Mulher, uma mulher de armas que apenas parecia baixar a guarda a um homem quando este era Saramago, e ninguém mais! Dotada de um forte feminismo, a Presidenta (sem aspas) da Fundação José Saramago, foi verdadeiramente o Pilar da vida do português. Na vida do Homem e do escritor a jornalista surge como pedra basilar, funcionando como força motriz para toda aquela correria desenfreada.
Aos olhos do espectador, Pilar comprova a adulteração pública de que sofreu o véu que a cobre; a personalidade forte é comprovada, mas a tirania de que a acusam é blasfémica. Por detrás de um grande homem existe sempre uma grande mulher, e era esse mesmo posto que Pilar del Rio ocupava, entregando a Saramago força para continuar quando parecia que simplesmente não dava mais. No fundo, Saramago parecia viver para Pilar e Pilar vivia para Saramago, numa relação de reciprocidade apoteótica.
O resultado de toda esta produção está bastante bom e cumpre, de forma irrepreensível, ainda que porventura indesejadamente, a função de reestruturar e renovar a imagem que o Mundo possui de José Saramago, uma imagem mais intimista e próxima do real. E, com a visibilidade que a morte do escritor recolheu, tem a possibilidade de fazer espalhar esta nova fé com muito maior sucesso.
Está (re)descoberto o Homem por detrás da personalidade ideológica e literária.

Cinema #12 - Fight Club


Fight Club é uma das longas-metragens mais aclamadas da história do cinema, tendo sido baseada no romance homónimo de Chuck Palahniuk. Foi realizado por David Fincher e conta com actores como Edward Norton e Brad Pitt. Começa lentamente, com um enredo bastante simples, mas acaba por atingir uma complexidade incomensurável, obrigando a alguma reflexão, mesmo depois de já o ter devolvido à prateleira.
O princípio
Um empregado de escritório, mais um entre milhares, é confrontado com o seu quotidiano repetitivo e manipulado. Sofre com a estandardização a que o ser humano é subjugado sem qualquer retaliação, sofre com o consumismo que tanto o preenche como lhe demonstra a falta de unicidade que há em si. A sua existência mundana é desesperante, existe nele uma certa aspiração em demonstrar quem realmente é, e não a pessoa que a sociedade monopoliza e transforma diariamente. O Narrador (Edward Norton), tenta assim encontrar uma saída para esta adjectivação que constantemente o ataca e caracteriza como apenas mais um.
Em mais uma das suas viagens de trabalho, nas quais contemplava o apogeu do sofrimento a que a sociedade era imposta, conhece Tyler Durden (Brad Pitt), um vendedor de sabões que apresentava um carácter completamente oposto ao seu. Enquanto dialogavam sobre o materialismo sujo que todos praticavam Tyler incita ao começo de uma luta. Os dois homens encontraram, em algo tão primário como uma disputa física, uma forma inebriante de escapar ao seu dia-a-dia, às suas pessoas alternativas e entediantes. Não tardou muito até que outros homens se juntassem àquilo que aparentava ser um conjunto de brigas, mas que acabava por se tornar muito mais do que apenas isso; estava fundado o Fight Club. Neste, os seus participantes são presenteados com a hipótese de começar uma «vida nova», diferente da pessoa que apresentavam ao Mundo.
A expansão
Apesar de tanto a 1ª como a 2ª regra do Fight Club ditarem que nenhum membro deveria falar sobre o clube, cada vez mais homens foram aparecendo, e outros clubes começaram a ser fundados em diversos núcleos citadinos. A ideia foi-se expandindo, sofrendo mutações, até que atingiu um nível inesperado, em que o principal objectivo já não era transformar a individualidade, mas sim o colectivo, o Mundo. Os dois fundadores do Fight Club vêem esta problemática de maneira diferente, o que leva a um célere conjunto de choques entre ambos, que, por sua vez, resultam em revelações que acabam por transformar o rumo do filme e virar por completo a mente do espectador.
Fight Club é impressionante, de um significado inefável e de uma importância grandiosa. Contudo, o que aqui está descrito resume de forma muito pobre a totalidade do filme, apresentando, de forma a não revelar o seu desfecho, apenas a secção mais banal e comum de todo o enredo. O terrível marketing fez com que esta produção fosse erradamente cotada como mais um filme de acção, daí, não espero que o leitor compreenda toda a minha veneração por este filme até que o veja, do início ao fim, sem pausas, e com uma atenção imparcial. É sem dúvida um dos melhores produtos da Sétima Arte.
Classificação: 10/10

Cinema #11 - Full Metal Jacket


Stanley Kubrick é um nome que não passa indiferente a muita gente, seja pela controvérsia que gerou, ou então, e quase certamente, pelos filmes que já realizou. No seu repertório estão produções de alta qualidade como Laranja Mecânica, The Shining ou ainda 2001: Odisseia no Espaço. Uma das suas melhores longas-metragens é também Full Metal Jacket - Nascido para Matar.
A recruta
Começamos na recruta, onde inocentes jovens são mentalmente assediados para se tornarem em máquinas de guerra. As suas mentes são apagadas, a vontade própria desaparece e o cérebro é lentamente lavado e preenchido com a palavra "matar". Os ideais dos recrutas são suprimidos até ao mais ínfimo detalhe e a transformação começa a tornar-se bem sucedida. A rotina atinge o expoente, o mesmo padrão é aplicado a cada dia que passa, e a ideia de matar vai penetrando cada vez mais nas cabeças dos recrutas. A fragilidade do ser humano é extremamente delicada, e a mente de alguns não consegue lidar com esta situação, são então totalmente consumidos pela raiva e pelo desejo de exterminar qualquer pessoa.
O Vietname
Depois de um período conturbado na recruta, o soldado está pronto para ingressar no corpo militar no Vietname. É para lá que viaja, e se tudo o que lhe foi ensinado foi bem apreendido, apenas leva consigo a vontade de matar. Já no Vietname os soldados são confrontados com uma guerra demasiado cruel e sangrenta, onde inocentes eram mortos todos os dias. Os americanos usavam o famoso napalm, uma das armas mais desumanas alguma vez inventadas, e «varriam» cidades completas ou grandes áreas de floresta. Apesar dos fracos meios que possuíam, o Vietname do Norte combatia como podia contra os americanos, que tinham um número gigantesco de soldados na guerra. O envolvimentos dos Estados Unidos nos confrontos não era visto com bons olhos, mesmo por parte de quem combatia ao seu lado e quem era protegido pelas forças norte-americanos. De facto, ninguém os queria lá.
Stanley Kubrick apresenta-nos de forma irrepreensível o pior lado da Guerra do Vietname, a morte aliada à fragilidade da mente humana. A caracterização destes dois aspectos passa por momentos tão fulcrais e cativantes que é impossível ficar indiferente a toda esta produção. Full Metal Jacket choca pela realidade, pelos apresentar soberbo dos limites do ser humano, e as consequências do atravessar destes. Nota positiva ainda para a soundtrack escolhido pelo realizador, que conta com faixas como Surfin' Bird, dos Trashmen, e Paint It Black, dos Rolling Stones.
Classificação: 9/10

Cinema #10 - Filme do Desassossego


No início do século XX, Bernardo Soares, semi-heterónimo de Fernando Pessoa, escreve o "Livro do Desassossego". Quase um século depois, João Botelho entrega ao público a sua perspectiva da obra, sem receios ou assombros. Não seguindo uma narrativa coesa, o filme não tem o objectivo de apresentar uma história, sem fracturas ou paragens. Ele é o resultado de fragmentos soltos da vida de um solitário deambulante.
Bernardo Soares
Coxo e com bigode, ele é a figuração superficial de uma personagem de consciência profunda que, dificilmente, seria melhor caracterizada com outro actor. Corrigia o seu claudicar com um simples guarda-chuva, não querendo, contudo, mascará-lo com as adversidades metereológicas. Fugazmente, rabiscava num papel o que o inquietava, o que lhe retirava o sossego que nunca fora seu. Parcialmente misantropo, Bernardo Soares refugia-se na sombra das conversas, gosta de «medir» o ser humano, mas não contactar com ele. Cláudio da Silva é simplesmente natural no papel que desempenha. Não fosse a existência de uns quantos anacronismos, deliberados, e o espectador sentiria estar a ver Bernardo Soares em pessoa/Pessoa.
O poder dos sentidos
Cenas brilhantes, intermináveis e complexas falas, personagens irreverentes e domadas pelos vícios do quotidiano, é assim que, incompletamente, caracterizo esta produção. João Ribeiro, director de fotografia, desenvolve um trabalho harmonioso, produzindo cenas de uma magnitude visual arrebatadora. Tudo é genial, as sombras, as luzes e a combinação das diferentes tonalidades; é inquestionável a alma que este homem trouxe ao filme. A perplexidade torna-se contagiante na plateia, à chegada de um novo momento, cada um com uma genialidade própria, imerso nas palavras que adornam as falas e nas cores que pintam a tela. As caracterizações das personagens, dotadas de uma importância capital, falam por si só: as rugas vincam um carácter austero, os lábios pintados de um vermelho quente provocam no espectador uma sedução mais imediata e real, enquanto que a nudez faz com que o espectador sinta o despertar das pálpebras.
Alguns aspectos
Por vezes, o ser humano perde-se em vícios marginais à essencialidade da vida e João Botelho tende a reforçar esta realidade no filme. A libido e as drogas atacam repetidamente o consciente, atrasando o nosso pensamento, enchendo-o de um prazer falso e dissimulado. Ainda assim e, respeitando o corpo do livro, vão aparecendo algumas cenas soltas que espantam, pelo seu forte significado e impacto, a plateia. Somos, entretanto, apaziguados por alguns interlúdios musicais - com a participação fantástica de Carminho ou de Ricardo Ribeiro, ambos em destaque. A força da voz apura o nosso campo sensorial e prepara-nos para mais uma "overdose" de metáforas e paradoxos.
Provavelmente, a presença de legendas ajudaria a uma melhor compreensão do filme, a fixar o conteúdo da palavras pronunciadas, por vezes longas e insignificáveis, porque somos tentados a decifrar o seu propósito da mesma forma como analisamos um poema. Só que em frente à tela, temos apenas céleres segundos para esta operação e não somos auxiliados pela caneta nem pelo papel. Assim, perdemos alguns momentos (sufocados pela grandeza das imagens) no emaranhado fio da narrativa e arrisco a pensar que é impossível tal não acontecer, com a maior parte dos espectadores.
Recomendo, vivamente,esta belíssima peça de arte do cinema português. Com a merecida atenção, o espectador embarcará no universo pessoal de Fernando Pessoa, enquanto mente criadora e desassossegada. O melhor será também aventurarmo-nos no "Livro do Desassossego", o que tentarei fazer num futuro próximo.

Cinema #9 - He's Lost 'Control'


A fama foi tomando conta do significado da sua música, já não era entendido como desejava e carente de tudo Ian Curtis colocou um fim à sua vida. "Control", realizado por Anton Corbijn, centra a óptica em Ian Curtis e mostra-nos a efémera jornada que os Joy Division percorreram.
Ao longo desta longa-metragem a retina do espectador é somente invadida pelo preto, branco, e as suas diferentes tonalidades. O perfil de Ian é meticulosamente detalhado, começando pelos seus tempos escolares, nos quais já mostrava grandes aptidões para a poesia, passando pela formação dos Joy Division sob o nome de Warsaw, e acabando com o inevitável fim último da banda e da sua vida, sempre com os episódios da sua vida pessoal em paralelo. O que se segue neste artigo é contado pelo filme de forma brilhante.
O início
Com 19 anos Curtis casa com Debbie, uma rapariga que conhecera na escola e que acabaria por ser a mãe da sua única filha. O casamento começa de uma forma estável e feliz, e a banda serve como complemento ao trabalho de funcionário público de Ian. Este ingressou no grupo de forma fortuita, já que ao encontrar Peter Hook e Bernard Sumner num concerto dos Sex Pistols, estes disseram-lhe que estavam a tentar formar uma banda e necessitavam de um vocalista. Depois de uma busca intensiva de uma baterista estavam formados os Warsaw, nome escolhido momentos antes do primeiro concerto.
Sucesso e Traição
Rapidamente angariando fãs os Warsaw viram-se obrigados a mudar de nome para Joy Division de forma a não serem confudidos com os Warsaw Pakt, uma banda punk londrina. Compraram um estúdio e lançaram o primeiro EP, An Ideal for Living. Os concertos foram surgindo e a fama foi tomando conta da banda e da vida de Ian, que foi repentinamente atacado por um ataque epiléptico. Com a agenda cheia Curtis não estava muitas vezes em casa para estar com a mulher e com a filha Natalie, que tinha tido recentemente, acabando então por sucumbir a um novo amor, Annik Honoré, uma rapariga belga que tinha conhecido numa entrevista. Em Junho de '79 é lançado Unknown Pleasures, álbum que inclui músicas como Disorder ou She's Lost Control e até hoje considerado a obra-prima dos Joy Division.
Queda e Fim
Com ataques epiléticos cada vez mais frequentes infelizmente o Ian de Debbie já não era o mesmo que o Ian de Honoré, nem o mesmo que o Ian dos Joy Division. Tudo começou junto mas foi a separação que ditou o fim. Era impossível aguentar o carácter de estas três pessoas numa só vida e Ian julgava-se incompreendido, sentia que já ninguém entendia a sua música. Ou era a música ou era ele, e Ian Curtis escolheu-se a si para salvar a música. Na manhã de 18 de Maio de 1980 Ian Curtis suicidou-se.
Nunca se tratou de fama, mas sim de música. Ian Curtis nunca quis ser lembrado, quis sim que a música dos Joy Division, que tanto sentido fazia para ele, fosse recordada pelo que era. Ninguém o compreendeu e jamais alguém o compreenderá.
Classificação: 8.5/10

Cinema #8 - This Is England


Inglaterra, 1983. Shaun (Thomas Turgoose), um pequeno rapaz de doze anos marcado pela morte do seu pai, não tolerava que falassem deste em vão, o que lhe valia alguns problemas na escola. Depois de um dia complicado Shaun passa por um grupo de skinheads que o decidem acolher no grupo, tentando diverti-lo e apoiá-lo. Ele acaba por se inserir na cultura skinhead e a passar grande parte dos dias seguintes com eles, começando a vê-los como os seus verdadeiros amigos. Toda a envolvente faz com que o ingénuo rapaz se integre num mundo que não conhece; e se no início começa com umas simples brincadeiras mais arrojadas, no final acaba por ser demasiado para uma simples criança apanhada no meio de uma crise emocional.
O pai de Shaun morreu a defender o seu país na guerra das Falklands, e consumido por uma conversa-barata sobre o nacionalismo, o pequeno decide deixar o pai orgulhoso, ingressando na frente nacionalista britânica, cujos comportamentos são extremamente xenófobos e têm como objectivo a expulsão definitiva de imigrantes do solo britânico. À primeira vista, e com o poder nas mãos, Shaun parece gostar de todo aquele ambiente de defender o país e menosprezar os estrangeiros, mas o assunto era muito mais profundo e só quando tudo se descontrolou é que o rapaz finalmente percebeu onde se tinha metido.
Um filme impressionante que nos deixa boquiabertos e incrédulos com tamanha realidade que transmite. É apresentado um mundo que poucos conhecem na primeira pessoa, e que tanto assolou a Grã-Bretanha nos anos 80 e 90. Absolutamente assustador.
E que opinião tem o leitor sobre esta longa-metragem?
Classificação: 9/10

Cinema #7 - Psycho


Do primeiro ano da famosa década de 60 chega-nos Psycho, que a par de Os Pássaros e Vertigo é bem capaz de ser a obra-prima de Alfred Hitchcock, o mestre do suspense. Apesar de começar de forma simples e pouco notória, desde logo Psycho começa a ganhar contornos misteriosos mas que em nada fazem prever um tão profundo enredo.
Marion Crane, funcionária de uma empresa imobiliária interpretada por Janet Leigh, tinha a tarefa de depositar $40,000 e acaba por não o fazer, sucumbindo ao desejo material e fugindo de Phoenix com todo o dinheiro. Depois de dois dias em fuga ao volante, Marion encontra um motel escondido na berma de uma estrada agora remota. Este era gerido por Norman Bates (Anthony Hopkins), um jovem submetido ao excessivo poder maternal e com uma vontade própria próxima da indignidade. Aquando da sua breve estadia, Marion sente que deve voltar a Phoenix e devolver o que havia roubado, o que acaba por ser demasiado tardio.
Quando chega à altura em que pensamos que não se pode ir mais além do que já aconteceu cometemos um erro imperdoável, e somos logo «atacados» pelo explosivo final que altera qualquer impressão menos positiva. A história sofre uma reviravolta fatal que torna o filme meritório do seu nome e uma das melhores produções de sempre. O espectador é completamente abalado pela força que o enredo agora tem, e dele não se pode mais desprender.
Com um elenco bastante bom e uma banda sonora em perfeita sintonia com cada momento da longa-metragem (que acabou por ficar conhecida por todo o Mundo), Psycho é sem dúvida um daqueles filmes que deixa qualquer um atónito e sem uma réstia de indiferença. Um verdadeiro clássico.
Classificação: 9/10

Cinema #6 - Reservoir Dogs


Reservoir Dogs, filme que lançou Quentin Taratino para o estrelato, conta a história de um assalto simples a uma joalharia que acaba por se tornar num banho de sangue e em algo muito mais complicado.
Joe, chefe de uma rede criminosa, decide reunir 6 homens sem qualquer contacto entre si para roubar jóias israelitas num golpe em plena luz do dia. Para evitar qualquer risco de insucesso, cada um dos assaltantes recebeu um nome de código, uma cor; eram eles Mr. White, Mr. Orange, Mr. Blonde, Mr. Pink, Mr. Blue e Mr. Brown. Estes não deveriam em qualquer circunstância revelar o seu nome verdadeiro ou qualquer dado que comprometesse o segredo da sua identidade.
O «fácil» golpe acabou por não ter sucesso, já que a polícia estava à espera dos assaltantes quando estes tentavam escapar da loja com as jóias. Já no rendez-vous (local de encontro), e sabendo que tinham sido «tramados», os homens foram confrontados com a questão de existir um «bufo» entre eles. Enquanto discutem sobre quem seria o culpado de tamanha traição, a acção é complementada por acontecimentos que deixam o espectador preso à história e ainda mais curioso em saber quem será o traidor.
A concepção do filme acaba por ser muito original, já que este apenas demonstra o que se passa antes e depois do assalto, não mostrando a acção durante o mesmo. O elenco é outro dos pontos fortes desta longa-metragem, que conta com actores como Harvey Keitel (Mr. White), Tim Roth (Mr. Orange), e Steve Buscemi (Mr. Pink), profissionais conceituados do mundo do cinema. É seguramente um filme para ver e rever.
Classificação: 8.5/10

Cinema #5 - The Good, The Bad and The Ugly


"O Bom, o Mau e o Vilão", como é intitulado em português, é um dos maiores clássicos do cinema western. Dirigido por Sergio Leone é um dos muitos filmes que emergiram na época dos spaghetti western, filmes western com um elenco ou direcção de origem maioritamente italiana.
Blondie, Angel Eyes e Tuco, os três protagonistas, são interpretados por Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Eli Wallach, respectivamente. A acção desenrola-se em plena guerra civil americana, a Guerra da Secessão, que opôs a União (Norte) contra a Confederação (Sul) devido à protecção da escravidão por parte dos sulistas. Durante este clima bélico, Blondie, Angel Eyes e Tuco, protagonizam uma verdadeira caça ao ouro enquanto se desafiam entre alianças e confrontos. Apesar de começarem esta aventura em pólos distintos da acção, os seus caminhos acabam por se cruzar na disputa final pelo ouro.
Um dos pontos fortes deste filme é sem dúvida a forma como alia a aventura à banda sonora; esta que é provavelmente uma das melhores do mundo do cinema. Composta por Ennio Morricone, a trilha sonora que acompanha os momentos mais importantes rapidamente se eternizou. O filme termina com aquele que pode ser o final mais épico de todos os filmes western, não só pelo confronto final, mas também pelo que resulta deste. O espectador tem mesmo de esperar pelo último e fatal segundo para ver como é que o filme realmente acaba.
É uma longa-metragem obrigatória para qualquer um. Provavelmente, se não gostar do estilo vai estar constantemente à espera do final, mas depois verá que «valeu a pena».
Classificação: 9/10

Cinema #4 - Trainspotting

Realizado em 1996 por Danny Boyle, Trainspotting é, segundo o British Film Institute o 10º melhor filme britânico, segundo o NY Times um dos melhores 1000 filmes alguma vez feitos, e de acordo com uma votação o melhor filme escocês de sempre. Conta com actores como Ewan McGregor, Ewen Bremner, Jonny Lee Miller e Robert Carlyle, que com este filme se lançavam para o estrelato do mundo do cinema.
O início, apresentado no vídeo acima, é absolutamente arrebatador, é o ponto em que se repara que não é necessária uma gigante e cuidada dissertação sobre a condição humana para se rejeitar tudo aquilo a que temos ou podemos vir a ter direito. Renton, em estilo de narrativa, explica-nos então a negação que ele e os seus so-called mates fizeram à sociedade, trocando tudo pela heroína. Porém, o mais velho do grupo, Begbie, é totalmente contra a droga, tendo o seu vício quase exclusivo de «armar confusões» com qualquer um que se encontre no seu caminho. A acção do filme passa-se maioritariamente nos locais mais recônditos de Edimburgo, locais perfeitos para a difusão dos roubos, da droga e da violência.
Renton, interpretado por Ewan McGregor, apresenta-nos alguns momentos da sua vida e algumas das suas decisões mais importantes. Por entre algumas cenas Renton diz que quer parar de consumir heroína, e ao tentar fazê-lo é abordado por diversos tipos de desejos, até sexuais, para assim reaver o prazer que tanto lhe faz falta. Toda a história gira então à volta do facto de Renton conseguir ou não largar de vez a heroína e todas as complicações a isto ligadas. Ao longo de todo o filme o espectador é presenteado com imagens realistas e um tudo nada chocantes do mundo da droga e da vida destes outliers da sociedade. Desta feita, Trainspotting acaba por ser um completo must-see que nos enche de novas perspectivas e emoções.
Classificação: 9.5/10

Cinema #3 - Moon



Estamos num futuro próximo. A Terra utiliza agora uma nova fonte de energia apenas encontrada debaixo do solo lunar, o Hélio-3, sendo este de elevada importância para a sobrevivência do planeta. O material é extraído por máquinas que escavam toda a superfície da Lua, sendo apenas necessário um humano para enviar o Hélio-3 para a Terra. Este trabalho é realizado por Sam Bell sob um contrato de 3 anos. Não existe qualquer contacto directo com a Terra, e a única companhia de Sam, interpretado por Sam Rockwell, é GERTY, um computador que interage verbalmente com a personagem principal satisfazendo todas as suas necessidades do dia-a-dia.

Quase no final do seu contrato Sam começa a ficar ansioso por volta à Terra e regressar a uma vida normal; porém, afectado por diversas alucinações, este tem um acidente enquanto tenta retirar o Hélio-3 de uma das máquinas extractoras. Alguns dias mais tarde este acorda na estação lunar ao cuidado de GERTY, que o informa que uma equipa especial está a vir da Terra para arranjar a máquina que sofreu o acidente. Apesar de proibido de o fazer, Sam consegue sair da estação lunar para visitar o local do acidente, encontrando dentro do veículo que havia utilizado algo que nunca esperaria encontrar, um humano exactamente igual a si. Começando a questionar-se da veracidade de tudo o que se passa à sua volta Sam só pensa em arranjar maneira de voltar à Terra.

Realizado de forma soberba por Duncan Jones, Moon traz-nos uma história e ambiente ficcionais que há já muito faziam falta ao mundo do cinema. Com um enredo brilhante mas um tudo nada difícil de digerir, ao longo do filme o espectador é confrontado com alguns problemas ético-morais, fazendo com que este reflicta sobre as situações que Sam Bell e o seu equivalente atravessam. Durante toda a longa-metragem surgem descobertas arrebatadoras, e mesmo até ao final é difícil de prever o que vai acontecer a seguir. É assim um filme que não pode deixar de ser visto.

Classificação: 9/10

Cinema #2 - Youth in Revolt


Na cena inaugural Nick Twisp é-nos apresentado, por ele mesmo, como um ingénuo adolescente de 16 anos menosprezado pela sociedade e cujos pais enfrentam um processo de divórcio; este chega mesmo a referir que apenas conhece uma pessoa mais infeliz que ele, o seu melhor e provavelmente único amigo. Nick, interpretado por Michael Cera, considera-se um falhado no amor, vivendo na perseguição do sonho de finalmente conhecer a rapariga perfeita. Esta incompreensão que Nick sofre do sexo oposto é denotada em algumas das suas falas, como: "In the movies the good guy gets the girl, in real life it's usually the prick".
Quando confrontado com o facto de ter de trocar a sua cidade por um parque de campismo durante algum tempo, a personagem principal não levanta quaisquer problemas, afirmando que, como não possui vida não tem nada a perder. Acaba por ser neste lugar que Nick vê pela primeira vez Sheeni Saunders, uma bonita e intelectual adolescente que vive perto do seu parque, ficando desde logo apaixonado. Este, ao conhecer Sheeni, percebe que ela é mesmo a rapariga dos seus sonhos, ficando pouco tempo depois frustrado por saber que esta tem um namorado. Twisp cria então um alter ego chamado François Dillinger, um rufia de olhos azuis e bigode que o vai ajudar a conquistar Sheeni.
Toda a história do filme gira à volta de como Nick Twisp e a sua persona alternativa, François, vão conseguir ficar junto de Sheeni, ultrapassando todos os obstáculos que se transpuserem no(s) seu(s) caminho(s). Porém, e apesar de as atitudes de fora-de-lei de François impressionarem Sheeni, estas colocam a polícia atrás de Nick, facto que veio a complicar em grande escala a sua relação.
Esta produção acaba por estar dentro do chamado average, não se sobressaíndo, mas não ficando aquém das expectativas. Acaba por ter uma classificação «simpática» devido ao papel das personagens, que, no caso de François Dillinger, o bad boy faz o espectador voltar ao filme e esperar pelo desenrolar de toda a acção.
Classificação: 7/10

Cinema #1 - The Italian Job (1969)


Quando Charlie Croker, famoso ladrão inglês interpretado por Michael Caine, sai da prisão, este rapidamente assegura um novo golpe. A primeira tentativa de o levar a cabo tinha falhado uns tempos antes, quando Roger Beckermann, bom amigo de Charlie e criador do plano, é morto pela máfia italiana, que queria prevenir o assalto. Este passava por, no meio do tráfego intenso da cidade de Turim, Itália, apreender uma carrinha que iria entregar 4 milhões de dólares em barras de ouro à FIAT, carregar o ouro em três Austin Mini, e, de seguida, escapar pela cordilheira dos Alpes para fora do país.
Devido ás reduzidas hipóteses de sucesso, o assalto necessitava de uma excelente equipa preparada da melhor forma; num dos inúmeros testes de preparação efectuados, Charlie profere a famosa frase "You were only supposed to blow the bloody doors off!", votada em 2003 como a melhor fala do cinema de todos os tempos.
Como ponto fraco, o filme apresenta uma primeira hora algo maçadora quando comparada ao instante da perseguição, porque apesar de possuir alguns momentos estruturantes, envolve uma série de personagens e cenas que acabam por se tornar supérfluas para a conclusão da história.
Envolvendo uma épica fuga pelos telhados, ruas, passeios, barragem e esgotos de Turim, tal como um imprevisto final, este filme acaba por se tornar uma fantástica produção, que consegue juntar todas as características de uns festivos anos 60 a um supostamente impossível golpe em Itália. Com um elenco bem formado, que inclui Noël Coward e Benny Hill, juntamente com o papel arrebatador de Michael Caine na pele de Charlie Croker, este é assim um óptimo filme de acção que não usa excessivos efeitos especiais ou repetitivos tiroteios aos quais hoje em dia estamos habituados.
Classificação: 8/10