
Já veio a público a nomeação de Eduardo Catroga para chairman da EDP, empresa privatizada após negociações em que este mesmo participou. Irá auferir 45.000 euros mensais, acumulando uma pensão de 9.600 euros. Se isto não é pouco ético, não sei o que será. Primeiro o explícito boy, depois o facto de ser uma parte ganhante quando fez parte da comissão de negociações, e ainda a pensão milionária (o salário fica de fora da discussão, a introdução tem os seus limites técnicos).
A Economia portuguesa
O exemplo de Catroga assenta que nem uma luva quando queremos iniciar um pensamento sobre os dinheiros públicos. Nos tempos que correm, a pensão de 9.600 euros é chocante, que não me deixa entender a razão para que nenhum Governo tenha tido a ideia de congelar as pensões quando os salários são elevadíssimos. Pensando melhor, a razão está explícita, muitos deles juntam salário a uma pensão nas contas finais do mês, seria aborrecido. Não obstante a gravidade desta situação, o que verdadeiramente faz desaparecer o dinheiro são outro tipo de questões.
Um dos problemas basilares da economia portuguesa é, na verdade, a economia paralela. Em Portugal esta já atingiu os 33 mil milhões de euros, quase 20% do PIB nacional. Com tanto dinheiro desviado dos cofres do Estado, não admira que a crise seja inevitável. Trata-se de uma problemática estrutural, que sem resolução continuará a desviar fundos ao Estado, este que caminha pobre e mal alimentado. Em Itália já existem leis para controlar a economia paralela, como a obrigatoriedade de um cliente possuir o recibo quando está a menos de 100 metros da respectiva loja - caso contrário essa loja paga uma multa elevada.
Impostos e Fiscalização
O verdadeiro buraco negro da economia portuguesa está, como é claro, nos impostos e sua inexistente fiscalização. Este é, de facto, o cenário idílico para um indivíduo mostrar o seu know how em manobras à portuguesa. O português gosta de esperteza saloia, e, portanto, não lhe dá jeito pagar impostos. Convenhamos, se o vizinho não paga e nada lhe acontece, para que é se há-de pagar? Operação mental digna de um Descartes.
Sabendo-se que a fuga aos impostos é gigantesca, porque não se faz nada para a travar? Infelizmente, a maioria que foge à sua obrigação fiscal tem bastante dinheiro, e muitas vezes influência política. Aqui entram os lobbys, que tanto destroem e corrompem o nosso sistema político-legislativo. Isto sim precisa de mudar, é necessário que alguém tenha vontade e poder suficientes para abolir o sistema, caindo veemente sobre aqueles que evitam o progresso do nosso país.
Só vejo isto possível na figura de um Presidente da República, não o que temos agora, mas sim uma figura activa e presente na política portuguesa, algo mais do que um inconstante comentador inconveniente que nada acrescenta às decisões. Um Primeiro-Ministro estará sempre ligado aos interesses do seu partido e do Governo, mas um Presidente apartidário e responsável poderá bem ter a desejada influência para dar um volta à situação. A sua figura terá sempre proeminência no que toca ao comentário político, e as suas funções não são assim tão reduzidas como a maioria acredita.
A economia portuguesa segue no trilho de um futuro ainda mais negro do que o presente. Não se investe na produção, os cortes são sistemáticos e os lucros são diminutos. Sem apostas claras e confiantes em consertar os erros, dificilmente escaparemos ao redemoinho da crise.
Nota: No meu último artigo falei do movimento de ocupação de casas abandonadas. Na Irlanda já há quem o faça. Leia aqui o artigo do The Guardian.

1 comentário:
Francisco
Efectivamente os nossos políticos perderam a vergonha. Se é que alguma vez a tiveram! Não me choca os 45 mil euros de ordenado -- desde que eu não tenha de pagar por isso...
Choca-me que seja nomeado depois de ter feito parte da negociação e de acumular com uma reforma quando afinal ainda está no activo!
Mas, sinceramente, não espero nada destes nossos políticos. Para além dos escândalos, fraudes, desvios, esbanjamento dos dinheiros públicos, decisões em causa própria, etc, etc. vale tudo pois fica-se sempre impune. Como podemos nós depois exigir que o povo seja cumpridor? Afinal a grande ambição das pessoas é ser como eles...
(Tou sem bateria)
Quanto ao Presidente da República apartidário!! Talvez só regressando à monarquia e, mesmo assim, sem qualquer garantia. Mas, talvez fosse uma solução. Sempre poderíamos educá-lo desde cedo. Seventy-six
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