Reading Festival 2010


(foto por Nick Clark)
Entre os dias 27 e 29 de Agosto decorreu em Reading, Inglaterra, o mais antigo festival de música ainda no activo, que é ao mesmo tempo um dos maiores e melhores do Mundo. Foram duzentas e dez (sim, 210!) as bandas que espalhadas por 5 palcos actuaram para cerca de 90.000 pessoas todos os dias, sem contar ainda com as dezenas de comediantes e demais artistas do palco alternativo. Entre os nomes mais sonantes figuravam Queens of the Stone Age, Arcade Fire, Blink-182, Guns n' Roses, e os tão aguardados The Libertines.
Na realidade o festival de Reading, tal como muitos outros festivais de verão, começa antes de qualquer actuação, já que antes dos dias com concertos é possível acampar numa massiva área verde dividida em sete diferentes zonas de campismo (ver aqui mapa do festival). Com a ajuda das chuvas torrenciais essa tal área verde transformou-se rapidamente num extenso e profundo lamaçal impossível de ser habitado sem as devidas galochas; apesar disto havia quem apenas usasse chinelos ou ainda quem andasse descalço. Com a chegada dos concertos a chuva foi cedendo aos pedidos dos festivaleiros e durante o fim-de-semana o sol foi dominante, o que não fez com que a lama desaparecesse mas ajudou a que esta não continuasse a alastrar.

(foto por metro.co.uk)
No primeiro dia, em termos de grupos mais adorados, actuaram os Billy Talent, Gogol Bordello, NOFX, Biffy Clyro, Queens of the Stone Age, LCD Soundystem e Guns n' Roses. Os ciganos de Eugene Hütz voltaram a fazer a festa com os seus alegres temas de música étnica; os norte-americanos de Joshua Homme tiveram uma actuação de elevada qualidade mas de curtíssima duração; já Axl Rose e os seus amigos chegaram uma hora atrasados e tiveram de ter o som cortado para abandonar o palco. No geral acabou por se revelar um dia à altura do festival, com várias actuações de grande nível e um óptimo fecho por parte dos LCD Soundsystem. Nota positiva para os pouco conhecidos Blood or Whiskey, grupo de punk celta que abriu o palco Lock Up com muita energia e dedicação.
Depois de um bom princípio de festival chegava a vez de os The Libertines actuarem, o que causou algum nervosismo em todos os fãs. Juntamente com o grupo britânico eram Hadouken!, Dizzee Rascal, Crystal Castles, Pendulum e Arcade Fire os grupos que esperavam recolher mais espectadores. Os ingleses Hadouken! entraram a todo o gás com a sua electrónica na tenda Radio1/NME, pujantes e destemidos; os Arcade Fire atingiram um espectáculo melódico e harmonioso com grandes respostas por parte do público em músicas como Laika ou No Cars Go; contudo, as grandes atenções da noite estavam viradas para os The Libertines, que surpreenderam todos com a cumplicidade demonstrada entre Pete Doherty e Carl Barât. Tiveram uma performance irrepreensível e mostraram o porquê de serem tão adorados pelo mundo fora.

(foto por metro.co.uk)
No derradeiro dia do festival de Reading eram aguardadas as actuações de Blink-182, Paramore, ou ainda Limp Bizkit, o que fazia com que a qualidade musical estivesse quase exclusivamente patente nos palcos secundários. Estes contavam com artistas como Los Campesinos!, Metronomy, The Drums, Foals, We Are Scientists e Klaxons, entre outros. O grupo dos diferentes Campesinos! organizou a festa do costume com a sua música ritmada e alegre; a electrónica de Metronomy esteve ao mais alto nível, tal e qual da forma a que eles nos habituaram; The Drums chocaram uma grande assistência ao não tocar o seu grande single, Let's Go Surfing; os Foals foram absolutamente clamorosos, nada de negativo a apontar num espectáculo que apresentou todas as suas facetas e qualidades; We Are Scientists conseguiram provar porque estão no auge da sua carreira que já dura há uma década, obtendo uma excelente cumplicidade com o público ao aliar a conversa com a música; no final foram os Klaxons a fechar a tenda Radio1/NME, no que foi mais um excelente espectáculo terminado com a destemida Atlantis to Interzone.
Depois de uma semana intensa entre voos e viagens de comboio e tube apenas me recordo de dois aspectos que poderiam ter sido melhores no festival; se Queens of the Stone Age tivessem sido trocados com Guns n' Roses e The Libertines com Arcade Fire provavelmente o espectáculo teria sido ainda mais incrível. Porém Reading 2010 acabou por se revelar um excelente festival, logrando provar mais uma vez porque é um dos maiores e melhores eventos de música ao ar livre do mundo. Tudo ajudou, desde os artistas aos festivaleiros e desde as condições climatéricas à organização. É sem dúvida um modelo a seguir.

4 comentários:

Zé Avariado disse...

Então e a experiência da ida em si? O que viste de diferente na organização de um festival em Inglaterra para um festival em Portugal? E o tipo de público?

Francisco Morgado Gomes disse...

Boas,

A experiência foi fantástica, fiquei a conhecer um mundo que não conhecia, apesar de já ter frequentado alguns festivais nacionais. Só o facto de estar em território estrangeiro modifica logo o significado, porque, neste caso, não são umas horas de carro que te separam da tua casa e da tua família.
Em termos de organização tenho a dizer que nunca tinha visto nada assim. Existe uma associação médica e uma polícia especializadas em festivais, que sabem lidar com aquele ambiente. Devido a todos os perigos (roubos e fogos, principalmente) que têm passado por Reading nos últimos anos toda a segurança está reforçada, o que não impede que te divirtas, e bem! Lá dentro do recinto encontrei novamente uma organização sem precedentes, tudo muito bem organizado, com postos de água gratuita (dentro e fora do recinto) nos quais podias encher as tuas garrafas (deixavam-te ter a rolha). De referir o facto de os seguranças das grades, para além de terem todo o trabalho inerente à segurança, distribuem copos de água! Era só chegar lá e pedir, que eles enchiam com toda a simpatia quantos copos quisesses para matares a tua sede!
Podia escrever mais, mas não me quero estender demasiado, o que já fiz.
Em termos de público é o mais louco que podes imaginar. Imensas pessoas vestidas com fatos de algo, Mario e Luigi, Pacman e os fantasmas, Wally, etc. Todos muito simpáticos e conversadores, tanto os de lá como os de fora.
Toda a envolvente foi fantástica, é mesmo algo que recomendo a todos os festivaleiros.
Qualquer coisa sobre como fomos ou algo mais, é só perguntar.

Obrigado pelo interesse,
Francisco Gomes

Zé Avariado disse...

Mas, Francisco, afinal existe ou não alguma diferença entre um festival de música em Portugal ou em Inglaterra? Se os músicos são os mesmos a diferença só pode existir no ambiente que é gerado em seu torno, ou seja, a envolvência do público.
Esse público, sabia ao que ia e porque ia? Como participa no espectáculo? Bate palmas ou é parte integrante do mesmo?

Francisco Morgado Gomes disse...

Sim, existe diferença, e grande.
Primeiro o espaço, em termos de tamanho do recinto, organização, e comida/produtos disponíveis; tudo em dimensões megalómanas se assim o podemos dizer. E se temos uma envolvente assim sentimo-nos logo diferentes.
Depois o público (e peço desculpa por não me ter explicado bem anteriormente) é totalmente diferente. Primeiro, por serem cerca de 90.000 pessoas dentro do recinto, os artistas, por se verem diante de uma massa tão grande de espectadores e por estarem a actuar, neste caso, num dos melhores festivais do Mundo, sentem sempre algo especial, o que leva a concertos únicos.
O público sabe onde está e participa em grande forma nos espectáculos, com comportamentos que eu nunca tinha visto. Como por exemplo o facto de tudo voar a meio de concertos, galochas, roupa, garrafas, cerveja, tudo. Esforçam-se por cantar e entregam alma e coração ao artista que em palco adora toda aquela situação. Isto acaba por contribuir mais uma vez para a eternização de alguns concertos. Como por exemplo o dos The Libertines nesta edição do Reading Festival.
É único.

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