
Entre os dias 27 e 29 de Agosto decorreu em Reading, Inglaterra, o mais antigo festival de música ainda no activo, que é ao mesmo tempo um dos maiores e melhores do Mundo. Foram duzentas e dez (sim, 210!) as bandas que espalhadas por 5 palcos actuaram para cerca de 90.000 pessoas todos os dias, sem contar ainda com as dezenas de comediantes e demais artistas do palco alternativo. Entre os nomes mais sonantes figuravam Queens of the Stone Age, Arcade Fire, Blink-182, Guns n' Roses, e os tão aguardados The Libertines.
Na realidade o festival de Reading, tal como muitos outros festivais de verão, começa antes de qualquer actuação, já que antes dos dias com concertos é possível acampar numa massiva área verde dividida em sete diferentes zonas de campismo (ver aqui mapa do festival). Com a ajuda das chuvas torrenciais essa tal área verde transformou-se rapidamente num extenso e profundo lamaçal impossível de ser habitado sem as devidas galochas; apesar disto havia quem apenas usasse chinelos ou ainda quem andasse descalço. Com a chegada dos concertos a chuva foi cedendo aos pedidos dos festivaleiros e durante o fim-de-semana o sol foi dominante, o que não fez com que a lama desaparecesse mas ajudou a que esta não continuasse a alastrar.

No primeiro dia, em termos de grupos mais adorados, actuaram os Billy Talent, Gogol Bordello, NOFX, Biffy Clyro, Queens of the Stone Age, LCD Soundystem e Guns n' Roses. Os ciganos de Eugene Hütz voltaram a fazer a festa com os seus alegres temas de música étnica; os norte-americanos de Joshua Homme tiveram uma actuação de elevada qualidade mas de curtíssima duração; já Axl Rose e os seus amigos chegaram uma hora atrasados e tiveram de ter o som cortado para abandonar o palco. No geral acabou por se revelar um dia à altura do festival, com várias actuações de grande nível e um óptimo fecho por parte dos LCD Soundsystem. Nota positiva para os pouco conhecidos Blood or Whiskey, grupo de punk celta que abriu o palco Lock Up com muita energia e dedicação.
Depois de um bom princípio de festival chegava a vez de os The Libertines actuarem, o que causou algum nervosismo em todos os fãs. Juntamente com o grupo britânico eram Hadouken!, Dizzee Rascal, Crystal Castles, Pendulum e Arcade Fire os grupos que esperavam recolher mais espectadores. Os ingleses Hadouken! entraram a todo o gás com a sua electrónica na tenda Radio1/NME, pujantes e destemidos; os Arcade Fire atingiram um espectáculo melódico e harmonioso com grandes respostas por parte do público em músicas como Laika ou No Cars Go; contudo, as grandes atenções da noite estavam viradas para os The Libertines, que surpreenderam todos com a cumplicidade demonstrada entre Pete Doherty e Carl Barât. Tiveram uma performance irrepreensível e mostraram o porquê de serem tão adorados pelo mundo fora.

No derradeiro dia do festival de Reading eram aguardadas as actuações de Blink-182, Paramore, ou ainda Limp Bizkit, o que fazia com que a qualidade musical estivesse quase exclusivamente patente nos palcos secundários. Estes contavam com artistas como Los Campesinos!, Metronomy, The Drums, Foals, We Are Scientists e Klaxons, entre outros. O grupo dos diferentes Campesinos! organizou a festa do costume com a sua música ritmada e alegre; a electrónica de Metronomy esteve ao mais alto nível, tal e qual da forma a que eles nos habituaram; The Drums chocaram uma grande assistência ao não tocar o seu grande single, Let's Go Surfing; os Foals foram absolutamente clamorosos, nada de negativo a apontar num espectáculo que apresentou todas as suas facetas e qualidades; We Are Scientists conseguiram provar porque estão no auge da sua carreira que já dura há uma década, obtendo uma excelente cumplicidade com o público ao aliar a conversa com a música; no final foram os Klaxons a fechar a tenda Radio1/NME, no que foi mais um excelente espectáculo terminado com a destemida Atlantis to Interzone.
Depois de uma semana intensa entre voos e viagens de comboio e tube apenas me recordo de dois aspectos que poderiam ter sido melhores no festival; se Queens of the Stone Age tivessem sido trocados com Guns n' Roses e The Libertines com Arcade Fire provavelmente o espectáculo teria sido ainda mais incrível. Porém Reading 2010 acabou por se revelar um excelente festival, logrando provar mais uma vez porque é um dos maiores e melhores eventos de música ao ar livre do mundo. Tudo ajudou, desde os artistas aos festivaleiros e desde as condições climatéricas à organização. É sem dúvida um modelo a seguir.

4 comentários:
Então e a experiência da ida em si? O que viste de diferente na organização de um festival em Inglaterra para um festival em Portugal? E o tipo de público?
Boas,
A experiência foi fantástica, fiquei a conhecer um mundo que não conhecia, apesar de já ter frequentado alguns festivais nacionais. Só o facto de estar em território estrangeiro modifica logo o significado, porque, neste caso, não são umas horas de carro que te separam da tua casa e da tua família.
Em termos de organização tenho a dizer que nunca tinha visto nada assim. Existe uma associação médica e uma polícia especializadas em festivais, que sabem lidar com aquele ambiente. Devido a todos os perigos (roubos e fogos, principalmente) que têm passado por Reading nos últimos anos toda a segurança está reforçada, o que não impede que te divirtas, e bem! Lá dentro do recinto encontrei novamente uma organização sem precedentes, tudo muito bem organizado, com postos de água gratuita (dentro e fora do recinto) nos quais podias encher as tuas garrafas (deixavam-te ter a rolha). De referir o facto de os seguranças das grades, para além de terem todo o trabalho inerente à segurança, distribuem copos de água! Era só chegar lá e pedir, que eles enchiam com toda a simpatia quantos copos quisesses para matares a tua sede!
Podia escrever mais, mas não me quero estender demasiado, o que já fiz.
Em termos de público é o mais louco que podes imaginar. Imensas pessoas vestidas com fatos de algo, Mario e Luigi, Pacman e os fantasmas, Wally, etc. Todos muito simpáticos e conversadores, tanto os de lá como os de fora.
Toda a envolvente foi fantástica, é mesmo algo que recomendo a todos os festivaleiros.
Qualquer coisa sobre como fomos ou algo mais, é só perguntar.
Obrigado pelo interesse,
Francisco Gomes
Mas, Francisco, afinal existe ou não alguma diferença entre um festival de música em Portugal ou em Inglaterra? Se os músicos são os mesmos a diferença só pode existir no ambiente que é gerado em seu torno, ou seja, a envolvência do público.
Esse público, sabia ao que ia e porque ia? Como participa no espectáculo? Bate palmas ou é parte integrante do mesmo?
Sim, existe diferença, e grande.
Primeiro o espaço, em termos de tamanho do recinto, organização, e comida/produtos disponíveis; tudo em dimensões megalómanas se assim o podemos dizer. E se temos uma envolvente assim sentimo-nos logo diferentes.
Depois o público (e peço desculpa por não me ter explicado bem anteriormente) é totalmente diferente. Primeiro, por serem cerca de 90.000 pessoas dentro do recinto, os artistas, por se verem diante de uma massa tão grande de espectadores e por estarem a actuar, neste caso, num dos melhores festivais do Mundo, sentem sempre algo especial, o que leva a concertos únicos.
O público sabe onde está e participa em grande forma nos espectáculos, com comportamentos que eu nunca tinha visto. Como por exemplo o facto de tudo voar a meio de concertos, galochas, roupa, garrafas, cerveja, tudo. Esforçam-se por cantar e entregam alma e coração ao artista que em palco adora toda aquela situação. Isto acaba por contribuir mais uma vez para a eternização de alguns concertos. Como por exemplo o dos The Libertines nesta edição do Reading Festival.
É único.
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