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Literatura #3

A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água
Escrita por Jorge Amado e publicada em 1959, esta é uma das principais obras da literatura brasileira. A narrativa começa por apresentar ao leitor a misteriosa dúvida quanto aos últimos instantes de Quincas, habitante da Bahia que tinha agora conhecido o seu fatídico destino. Ainda que este tivesse sido anunciado por mais do que uma vez, finalmente parecia credível e verídico (mas não para todos). Incontáveis eram as situações em que os familiares o desejavam desparecido ou até mesmo morto, face ao seu contínuo vilipendiar do nome da família.
Quincas fora, em tempos, Joaquim Soares da Cunha, um belíssimo funcionário público, homem irrepreensível e exemplar para os seus semelhantes. Um dia, porém, decidiu abandonar tudo o que construira e tornar-se num vagabundo, perdido pela ladeira de São Miguel. Aí a família vetou-o ao esquecimento, anunciando a sua morte; ainda assim todos sabiam quem Quincas era e riam quando se espalhava mais uma das suas peripécias.
Jorge Amado centra a história no desenrolar de eventos que se seguem à segunda morte de Quincas; principalmente nas diferenças entre as atitudes da família, tomadas como obrigações, e as reacções dos amigos, verdadeiramente lastimosos. A família aparece ainda magoada com o abandono a que Quincas primeiramente os sujeitara, e os amigos surgem atacados pela derradeira partida do "pai da gente", que depois de uns quantos tragos de álcool já não parecia tão verdadeira. É um livro bastante leve e a ter em conta, cuja leitura certamente o vai entreter. Foi recentemente adaptado ao cinema; realizada por Sérgio Machado, a longa-metragem adoptou o mesmo nome que a obra literária.
O Carteiro de Pablo Neruda
Antonio Skármeta, jornalista e escritor chileno, conta-nos aqui a fabulosa e verídica ligação do poeta e escritor Pablo Neruda com o seu carteiro, Mario. Na ilha de Isla Negra, apenas um ser humano recebia correspondência e sabia o que fazer com ela; Don Pablo morava do outro lado desta ilha, isolado da população, e precisava do seu carteiro. Mario estava desempregado, e, com aquele posto dos correios vazio, decidiu aproveitar a oportunidade de escapar ao ofício de pescador. Propulsionado pelo seu fascínio para com o poeta, o casi analfabeto Mario sente-se tentado em conversar, descobrir um pouco mais de Don Pablo. E o que começou com meias-palavras e conselhos amorosos, acabou por se tornar numa inequívoca amizade, entre carteiro e poeta.
Mario e Pablo acabaram por ficar muito ligados um ao outro. Esta relação ficou bem patente no amor de Mario - foi o poeta que o introduziu às artes da poesia e falou com a mãe de Beatriz, o que contribuiu para a conquista da amada - e também no orgulho que o carteiro tinha no poeta - fez questão de fazer uma festa para toda a ilha aquando da cerimónia de entrega do Nobel da Literatura a Neruda. A história não deixa de nos interessar nem por breves momentos, o que é certamente provocado pela impossibilidade com que normalmente conotariamos esta relação. É um livro bastante pequeno, que se consegue ler de uma só vez, e que provavelmente não o deixará fazer o contrário. Foi adaptado ao grande ecrã por duas vezes, primeiramente pelo próprio autor do livro, em Ardiente Paciencia, e depois por Michael Radford, em O Carteiro de Pablo Neruda.

Literatura #2 - Animal Farm


Nascido em 1903, na Índia, George Orwell assinou diversas obras de literatura, entre elas "Animal Farm", reconhecida internacionalmente pela sua brilhante crítica e sátira ao regime comunista soviético, em vigência desde o pós-guerra até aos anos 90. O nome de nascença de Orwell é Eric Arthur Blair, mais tarde vindo a adoptar o nome pelo qual é mundialmente conhecido. Na sua obra constam livros como 1984, Burmese Days e Coming Up For Air.
Contre Stalin
Pensada como uma história contra o regime de Estaline, Animal Farm aponta as incongruências e maiores falhas do Comunismo. Começa por apresentar a quinta onde se desenrola a acção, a Manor Farm, propriedade de Mr. Jones, um ébrio agricultor que induz os seus animais a um trabalho pouco remunerado em alimentos. Infelizes e guiados por Old Major, o mais velho e sábio porco da quinta, sonham com a liberdade, o resultado de uma rebelião contra Mr. Jones. Guiados por uma máxima, "Four Legs Good, Two Legs Bad", e até mesmo inspirados por uma canção, Beasts of England - funcionando tal qual como uma música do Coro do Exército Vermelho -, levam a cabo a revolução que elimina a chefia humana da quinta, entregando o controlo aos animais. O objectivo da eliminação humana fora consumado, agora só necessitavam de viver em igualdade, sem cair nos vícios humanos.
Revolução esquecida, liberdade perdida
A sublevação é orquestrada com incrível sucesso; e desde logo os animais começam a organizar a vida na quinta, agora chamada de "Animal Farm". Os porcos Napoleon e Snowball, líderes da rebelião, chefes ficaram, uma vez que se tratavam dos animais mais espertos. Os outros, ignorantes na verdadeira acepção da palavra e, consequentemente, ingénuos, limitavam-se a ouvir e a seguir as ordens que de cima provinham. Astuto, Napoleon expulsa Snowball - com o qual nunca concordava - da quinta, ficando com o caminho livre para o domínio absoluto. Com a ajuda de Squealer, um porco com qualidades demagógicas, manipula as frágeis mentalidades de todos os outros animais, submetendo-os a uma miséria que nem estes reconheciam ou condenavam. Pouco a pouco os porcos iam adoptando alguns dos vícios humanos, deixando-se corroer pelo poder que agora tinham em mãos.
Repleta de pequenos detalhes, a história prossegue para um final brilhantemente pensado - tal como a totalidade da obra. Uma incrível crítica ao modo como o comunismo parece pregar a igualdade e justiça entre todos os homens, enquanto que no topo existe sempre alguém a comandar e escravizar os demais. Abrange, de facto, todas essas revoluções pela liberdade que tão pouco depois parecem esquecer as causas que inicialmente defendiam. Uma história simples, rápida e recomendada.

Cinema #13 - José e Pilar


José e Pilar, ainda em exibição num cinema perto de si, chega ao mundo como um relato da vida de José Saramago e Pilar del Rio nos últimos anos do Nobel da Literatura. Filme realizado por Miguel Gonçalves Mendes, foi produzido com gravações do dia-a-dia do casal enquanto Saramago lidava com a sua vida, a de Pilar, e a viagem do elefante.
O Homem
José de Sousa Saramago surge-nos, nesta longa-metragem, despojado do traje egocêntrico que sempre lhe tentaram vestir, sem presunções ou altivez. Apercebemo-nos que, de facto, a pessoa quase ignóbil e inquestionável criada pela imprensa não passava de uma máscara ignorada por Saramago. Este era, como todos nós, um ser humano, normal, e de uma simplicidade inicialmente estranha. Acima de escritor, José Saramago era um Homem, que apenas se distinguia verdadeiramente pela sua forte personalidade, vincada de fundamentados ideais.
Tal como a viagem do elefante, a vida de José Saramago também teve um fim, e, enquanto este o esperava pacientemente, sem pressas, da mesma forma que Ricardo Reis assinalava o inevitável ponto final, queria sempre viver um pouco mais, fruto de um carpe diem em que diariamente se envolvia. Em José e Pilar damos conta do célere quotidiano do escritor português, que viajava em torno do globo, retirando um pouco de si para dar aos outros, àqueles que nem sequer conhecia, durante um tortuoso processo que viria depois a acamá-lo.
A Mulher
Pilar del Rio é a personificação da letra capitular da palavra Mulher, uma mulher de armas que apenas parecia baixar a guarda a um homem quando este era Saramago, e ninguém mais! Dotada de um forte feminismo, a Presidenta (sem aspas) da Fundação José Saramago, foi verdadeiramente o Pilar da vida do português. Na vida do Homem e do escritor a jornalista surge como pedra basilar, funcionando como força motriz para toda aquela correria desenfreada.
Aos olhos do espectador, Pilar comprova a adulteração pública de que sofreu o véu que a cobre; a personalidade forte é comprovada, mas a tirania de que a acusam é blasfémica. Por detrás de um grande homem existe sempre uma grande mulher, e era esse mesmo posto que Pilar del Rio ocupava, entregando a Saramago força para continuar quando parecia que simplesmente não dava mais. No fundo, Saramago parecia viver para Pilar e Pilar vivia para Saramago, numa relação de reciprocidade apoteótica.
O resultado de toda esta produção está bastante bom e cumpre, de forma irrepreensível, ainda que porventura indesejadamente, a função de reestruturar e renovar a imagem que o Mundo possui de José Saramago, uma imagem mais intimista e próxima do real. E, com a visibilidade que a morte do escritor recolheu, tem a possibilidade de fazer espalhar esta nova fé com muito maior sucesso.
Está (re)descoberto o Homem por detrás da personalidade ideológica e literária.

Literatura #1 - Os Anagramas de Varsóvia


Richard Zimler nasceu num subúrbio nova-iorquino em 1956. Formou-se em religião comparada na universidade de Duke e concluiu o mestrado em jornalismo em Stanford. Em 1990, e após alguns anos a exercer a profissão de jornalista, decidiu mudar-se para o Porto, onde agora ensina Jornalismo. Acabou em 2002 por se naturalizar português. Ao longo da sua vida tem escrito obras como "O Último Cabalista de Lisboa", "À Procura de Sana" e "Meia-Noite ou o Princípio do Mundo". Em 2009 Richard Zimler editou um policial, o seu último livro até agora, intitulado "Os Anagramas de Varsóvia".

A obra, de índole histórica, começa por apresentar ao leitor Erik Cohen, um psiquiatra de palavras gastas, enquanto este deambula pelas ruas de uma Varsóvia oprimida pela guerra. Ele um dia pertencera àquele local, o seu lugar era ao lado dos mais fracos. Pelo meio da sua expedição de regresso Erik encontra Heniek Corben, com o qual começa a discutir a situação do gueto. A conversa expande-se para a vida de Erik e de repente o leitor encontra-se no meio de uma narrativa, na qual Cohen relata a Heniek toda a sua vida e experiência no gueto.

Uns meses antes, durante um gélido Inverno polaco, o sobrinho de Erik desaparece sem deixar qualquer rasto. Na manhã seguinte este aparece na vedação de arame farpado que separava o gueto do Mundo. Enquanto a angústia e a raiva invadem Erik outra criança aparece morta. A personagem principal assume então um papel de anti-herói, tentando recolher provas para encontrar de uma vez o cruel assassino.

Por entre uma viagem pelos lugares mais inóspitos do gueto e situações de cortar a respiração, Erik conta-nos a inacreditável busca que ele e o seu fiel amigo Izzy fizeram ao homem que lhe arruinou a vida. Por entre toda a narrativa sentimos o frio a queimar nas mãos e a escuridão que se abate sobre a cidade, olhamos a pobreza e presenciamos a morte, somos assim invadidos por um turbilhão de sensações que nos prendem às palavras até ao findar das páginas.

Nota: O mapa apresentado acima, realizado por mim, serve para o situar, demonstrando a localização de algumas referências do livro. Estão apontadas as localizações de algumas passagens secretas utilizadas pelos judeus, tal como a da própria casa do protagonista.