Mêda +: Pequeno mas bem graúdo

Montes, vales, um calor abrasador e alguns quilómetros até à cidade mais próxima; estou na Mêda. Qualquer semelhança com uma produção de Sergio Leone é pura coincidência, até porque não vejo cowboys em lado algum. Não acordei aqui sem mais nem menos, até porque a viagem foi um pouco demorada - com um ou outro engano -, mas cedo deu para perceber o sitío a que tínhamos chegado.

Menos de 30 minutos e o ambiente do campismo já prometia, ainda nem a tenda estava montada e já ressoavam as bombinhas que os nossos vizinhos arremessavam para a rua. De facto, à primeira vista o Mêda + parecia um festival a sério: bom ambiente, boa música portuguesa, muita diversão e preços cómodos - cómodo é pouco. Por uns míseros 3€ foi-nos possível garantir o acesso às piscinas durante os três dias do festival, coisa pouca não é? Mas se a isto juntarmos o campismo gratuito e a entrada à borla no recinto, eis que encontramos o mote perfeito.

O tiro de partida do III Mêda + ficou a cabo dos The Glockenwise. Estes rapazes de Barcelos, que viram o seu álbum nomeado em 2011 para Melhor Álbum Europeu Independente (Impala), deram um concerto sóbrio, sem brilho, mas a um nível satisfatório. A plateia tornava-se mais numerosa para assistir ao grupo da casa A Cepa Torta. Sem esquecer alguns covers de grandes clássicos como Sultans of Swing, a banda soube entreter a audiência. Para finalizar a noite apareciam os Fitacola: punk-rockers de gema, lembraram outros tempos à juventude enquanto interagiam bastante com o público. Saciaram o público-alvo e não deixaram de fazer dançar os demais.

X-Wife

No segundo dia havia promessas de ainda mais espetáculo, visto que a ladear os cabeças de cartaz X-Wife surgiam Bisonte e The Doups, duas bandas nada estranhas no mais recente panorama nacional. Os setubalenses foram bem recebidos e deram um óptimo concerto, provaram que a aposta da Optimus Discos não foi gorada e serviu para lançar uma banda com bastante potencial. Num concerto em que I Said e Just As Predicted foram muito bem recebidas, houve ainda tempo para desejar os parabéns a um festivaleiro. Seguiam-se os X-Wife, que já andam nisto há bastante tempo, já é uma década inteira a percorrer o país de lés-a-lés e em palco isso importa bastante. O trio portuense, que adquiriu uma feição mais electrónica neste último álbum, conseguiu levantar a Mêda e pô-la a dançar. Ao segundo dia do Mêda + já estávamos rendidos.

No último dia foram os MulherHomem, pertencentes ao Movimento Alternativo Rock (MAR), a abrir a noite com categoria; seguiram-se Matilha - também do MAR -, um grupo que sem guitarras não se perde e encontra uma sonoridade bastante única. Para o encerramento do III Mêda + ficava o nome mais apetecível de todo o cartaz: Mão Morta. Tidos por muitos como a melhor banda portuguesa, os bracarenses foram iguais a si mesmos e não entraram em devaneios, atravessaram êxitos antigos e novos temas. Sempre com o demarcado apoio do público, que não deixava de acompanhar Adolfo Luxúria Canibal e os seus espasmos sincopados, o concerto acabou por se revelar um excelente ponto final para esta edição do festival.

Mão Morta

Um festival sem campismo não passa de uma série de concertos num determinado local, mas como o hábito não faz o monge, é preciso que nesse campismo os festivaleiros produzam o ambiente desejado. A esse ponto o Mêda + não oferece dúvidas, proporcionando um excelente ambiente e uma óptima experiência a todo e qualquer festivaleiro que por lá passe ou tenha passado. Para cúmulo, a existência das piscinas é sempre um trunfo, visto que acabaram por funcionar como porto de abrigo durante todo o festival. O sol abate-se com veemência sobre as tendas, e a pouca sombra - deixemos as árvores crescerem - obriga a um, dois, ou três mergulhos.

Depois de três dias muito bem passados, ficámos com a impressão de que Portugal e o Interior necessitam de mais eventos com estas feições e proporções. Se há queixas que a música portuguesa é ostracizada nos grandes festivais de verão, acabem-se com os centralismos e apoie-se quem tudo faz para a promover e a leva para o interior do país, muitas vezes vetado ao esquecimento. A verdade é que da Mêda só trazemos boas recordações e esperanças de que para o ano o cartaz esteja à altura.

Termino com uma certeza: o Mêda + não só parece como se comporta como um festival a sério. Agora tem tudo para crescer e tornar-se num baluarte da produção nacional, um exemplo a seguir!

Mêda+ dia 28

Fotografia: Rita Sousa Vieira
Artigo: Francisco Morgado Gomes

Slimmy de volta ao Marés Vivas

(Foto por: Alice Barcellos/SAPO)
Com uma plateia bem composta, Slimmy voltou a pisar os palcos do Marés Vivas TMN - desde 2008 que não actuava no festival. A irreverência foi um ponto assente desde o início. As calças justas e a pouca roupa da cintura para cima, muito mais do que uma simples imagem de marca.
A meio do concerto, Slimmy diz «assim eu fico sem jeito, né?», mostrando o quão o artista portuense está grato e surpreendido pelo apoio que o público recusa esconder.
O regresso do filho pródigo ao festival que tem para ele um significado especial acabou por correr da melhor forma. Slimmy fez ainda questão de referir que o Marés é no Norte, mostrando que na música não pode haver centralismo.
Publicado originalmente no Sapo On The Hop

Inquietação em Myanmar

A Birmânia – oficialmente República da União de Myanmar – atravessa tempos conturbados. Como principal gatilho surgem os confrontos religiosos, motivados em grande escala pela islamofobia que tem usurpado os direitos da minoria Rohingya quer por parte do Governo como pela maioria budista. Fruto da inquietação social testemunhada, Thein Sein, Presidente de Myanmar, declarou recentemente o estado de emergência no estado de Rakhine – epicentro dos conflitos -, pelo que o exército foi chamado a intervir.
O conflito
Os Rohingya, etnia muçulmana, têm sido alvo de racismo e segregação desde que habitam os territórios ocupados por Myanmar e pelo Bangladesh. Se a animosidade de que sofrem por parte da maioria budista era já elevada, os ânimos atingiram um outro nível depois de se espalhar a notícia de que uma mulher budista teria sido morta por três muçulmanos. Em resposta, um grupo de budistas atacou um autocarro que transportava muçulmanos perto de Taungup (ver mapa abaixo), a 4 de junho, quando no dia anterior um grupo de peregrinos islâmicos já haviam sido espancados até à morte por uma multidão budista.
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Da Índia com amor

Na Índia o amor é complicado (vulgo ainda mais complicado). A tradicionalidade assola a cultura indiana, pelo que fugir à maré e romper com o habitual torna-se numa missão quase impossível. Na maior parte das ocasiões, os noivos têm de se contentar com o regime de escolhas, sem terem a liberdade de casar com quem o desejam fazer. E é aqui que surgem os Comandos do Amor, um movimento com a missão de dar aos jovens (principalmente) a oportunidade de terem um casamento livre de pré-determinações.
Castas e critérios
Tido como algo sagrado e incontestável, na Índia, o sistema de castas divide a sociedade em classes, tal qual como acontecia na Europa do Antigo Regime. No entanto, apesar de ter sido criado com apenas quatro varnas (grupos), o sistema de castas indiano já contém uma larga quantidade de subdivisões, que foram surgindo após a criação do sistema. Apesar de estar ligado ao hinduísmo, também é aplicado em outras religiões, como o islamismo ou o cristianismo.
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Portugal e o alargamento


Novamente rejeitado pela Federação Portuguesa de Futebol, o alargamento da Liga tem suscitado diversas reacções no espectro de clubes profissionais portugueses. Proposto com diversas soluções, ainda não é desta que o alargamento é aprovado de modo definitivo. Mas será que tal medida vingaria no futebol nacional? Mais importante ainda, o que dizer da competitividade e da verdade desportiva?
O alargamento
Alargar de 16 para 18 o número de clubes na primeira divisão, regressando ao formato da época 2005/2006; foi esta a proposta de Mário Figueiredo, presidente da LPFP - Liga Portuguesa de Futebol Profissional. Desempenhando papel preponderante para a sua eleição como director deste organismo, a medida foi mais uma vez vetada pela FPF, mas Mário Figueiredo já afirmou que a sua «continuidade não depende desse assunto».
Iniciando o seu trilho com uma proposta que previa a não descida de qualquer equipa da Liga Zon Sagres, o alargamento cativou, desde logo, a atenção dos clubes que pela linha d'água vagueavam. Contudo, nem todos se mostraram tão receptivos, e dirigentes de equipas como o Sporting, o Porto e o Nacional revelaram a sua indignação face ao alargamento, impugnando a sua aprovação. A medida chegou a ser conotada de «imoralidade» por Pinto da Costa e «promoção da ilegalidade» por Rui Alves, presidentes do FC Porto e do CD Nacional, respectivamente.
Lançado o mote para mais uma discussão acesa no futebol português, Mário Figueiredo insistiu na aprovação da medida e adicionou o processo de "liguilha" para decidir as subidas e descidas. Ainda assim, o alargamento foi mais uma vez rejeitado pela FPF.
Bom senso e verdade desportiva
Os dirigentes nacionais ainda não entenderam que a promiscuidade só favorece os "grandes". Mais cedo ou mais tarde, a má gerência toma o lugar e cumpre o seu papel corrosivo, aniquilando qualquer equipa que se lhe faça frente. Foi o que aconteceu com o Salgueiros, ou o Boavista, e é o que já se prepara para abater sobre a União de Leiria.
Numa altura em que os salários em atraso não são motivo de surpresa, discutir a adição de duas equipas a uma competição que está longe de ser competitiva só pode ser uma brincadeira de mau gosto. Mas os clubes aceitam-na, cegos pela aparente "ascensão social" ou pela fatal manutenção. A subida ao escalão primodivisionário do futebol nacional não é para todos, a ambição desmedida tem de ser travada, caso contrário é o futebol que perde. Ao continuar, o futebol português tornar-se-à incomportável para uma boa parte dos clubes, e qualquer dia jogamos numa Liga Escocesa, com 12 equipas a três voltas. Meditando sobre isso, não sei até que ponto seria prejudicial.
Finalmente, é ainda necessário referir que todo este processo surge no decorrer da competição desportiva que pretende alterar, pelo que tem as intenções de mudar as regras a meio do jogo. Sem demais análises às medidas propostas, este aspecto é, por si só, reprovável, colocando em causa os valores de justiça desportiva e bom senso.
Fazendo uso das palavras do antigo secretário de Estado do Desporto e Juventude, Laurentino Dias, «É ilegal porque não se podem mudar as regras a meio, é irracional porque não tem fundamento em quaisquer estudos, e é oportunista porque resulta de uma proposta de campanha eleitoral, da qual se percebia qual era o sentido.»

Um punch na cultura portuguesa

Foi no passado sábado que se realizou, na Taberna das Almas, o primeiro Punchfest by mobitto, organizado pela Punch Magazine. Festival polivalente e diversificado, reunindo uma panóplia de actividades artísticas, aliou, entre outras, música e pintura, exposições e filmes de animação. Desenvolvendo um conceito inovador, ainda marginal no país, alertou assim para a importância de apostar em expressões culturais distintas, que harmonizem as relações entre as diferentes formas de arte. Espaço idílico para a realização de um evento cultural, a Taberna das Almas – antiga fábrica de vidro, reabilitada – revelou-se um local acolhedor e familiar, ameaçando tornar-se uma oficina artística de culto em Lisboa.
Leia no Espalha-Factos a reportagem completa
Texto por Daniel Veloso e Francisco Morgado Gomes